Aviso importante: se você prefere tramas intensas, personagens muito detalhados ou ritmo acelerado, esse pode não ser um livro fácil de apreciar. Samantha Harvey nos entrega um livro relativamente curto, sem um grande enredo dramático ou reviravoltas clássicas. Ele funciona mais como uma meditação poética sobre tempo, existência e nossa relação com a Terra.
A narrativa me fez acompanhar a rotina de seis astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional ao longo de 24 horas, período em que eles completam 16 órbitas ao redor da Terra. Essa repetição acabou sendo usada pela autora como um mecanismo próprio do livro: as órbitas retornam, as imagens se reiteram e os pensamentos giram em torno dos mesmos eixos.
No entanto, mesmo parecendo, em um primeiro momento, que a repetição me causaria cansaço, não foi isso que aconteceu. Acho que o livro me pegou em um momento muito específico de introspecção, numa manhã chuvosa, depois de uma noite difícil, e não sei se por causa disso ou por mérito exclusivo do livro, ele me fez sentir como se eu, assim como os astronautas, estivesse à deriva no espaço, completamente sozinha, envolta em uma solidão tranquila. Como se eu fosse a única pessoa no universo olhando o mundo, nossa Terra, lá de cima, imaginando o que o restante da humanidade estaria fazendo enquanto eu estava ali, perdida, vagando pela minha própria mente, sentindo no coração o vazio silencioso da existência.
Orbital fez minha mente alçar voo para um lugar diferente daquele para onde outros livros costumam me levar. Me levou a pensar mais profundamente sobre a brevidade da vida, sobre nossa capacidade de sonhar e transformar sonhos em realidade, sobre nossa insignificância diante da imensidão do universo e sobre a fragilidade do nosso pequeno planeta azul.
Dito isso, Orbital acabou criando, para mim, uma espécie de atlas moral do planeta. Enquanto acompanhei a repetição cíclica da narrativa, surgiram figuras como o pescador isolado em sua ilha, os biólogos no gelo e os próprios astronautas no espaço. Todos eram humanos vivendo em condições extremas, separados por distâncias intransponíveis, vistos uns pelos outros sem nunca realmente se encontrarem, existentes apenas através da imaginação de quem observa. Ao ler esses episódios como símbolos, o livro se tornou, para mim, mais coeso, mais inquietante e, honestamente, mais bonito.