Cheguei a este livro da argentina Silvina Ocampo (1903-1993) por um caminho inusitado: primeiro, cruzei com a sinopse da biografia da escritora ("A irmã menor", de Mariana Enríquez) e me senti imediatamente atraída! Adquiri a obra, mas em seguida, numa das resenhas do Skoob, esbarrei com um alerta do tipo: "a biografia é ótima, mas eu lamento não ter lido nada da produção ficcional de Ocampo; acho que assim teria aproveitado melhor a leitura de sua história de vida". Pois bem, conselho bom dado é conselho bom recebido! Voltei a colocar a biografia na estante e iniciei a leitura de "A fúria", uma coletânea de pouco mais de trinta contos publicada originalmente em 1959.
Como em todo livro que reúne um vasto número de contos, em "A fúria" nem todos os textos são memoráveis, alguns são inclusive descartáveis. Porém, como em todo bom livro de contos, a liga que justifica a coletânea é facilmente percebida: Ocampo é uma escritora do insólito, que (com as suas muitas personagens perturbadas!) vem perturbar a leitora e prendê-la numa zona de desconforto!
Relações fraternas e amorosas são tema frequente, sendo quase sempre conduzidas por ou culminando em estranhamento ou espanto: o casal que se muda para uma casa cheia de fantasmas (talvez metafóricos, talvez nem tanto); a esposa-escritora que confunde marido e personagens; o protagonista que faz amizade com um jovem vidente. Também os animais não são esquecidos por Ocampo: a mulher cuja descrição se confunde com a de um cavalo; a corrida de uma lebre que dribla inusitadamente uma matilha. Ou então simplesmente uma mulher presa num porão, nos dando a angústia de não entendermos nem qual é a profissão que ela afirmar ter, nem se ela estará a salvo de um desabamento iminente. Por fim, as ruas de Buenos Aires como cenário, diferentes crianças como personagens e sutis conflitos de classe enriquecem o combo!
Quem gosta da literatura fantástica de Cortázar vai se sentir em casa com Ocampo, com a diferença de que em muitos de seus textos encontramos uma dose a mais de ironia, humor ácido e morbidez. Em comum com o autor de "Bestiário" (1951) temos aquela atmosfera de um suspense que não demanda solução porque a graça da narrativa está precisamente naquilo que não deve ser explicado.
Aliás, por falar em Cortázar, é por aqui que começou o meu interesse pela biografia da autora. Pertencente à classe média alta, Ocampo não poderia ser mais íntima do cenário literário hispano-americano do qual o autor fazia parte: ela era casada com Adolfo Bioy Casares, foi muito amiga de Borges, e, dizem, chegou a ter uma caótica relação amorosa com Alejandra Pizarnik. Pensa então nessa biografia?
Também sua biografia literária não deixa a dever: trata-se de uma autora muito elogiada por nomes como Roberto Bolaño, Italo Calvino, Camus e próprio Cortázar, o que reforça o estranhamento diante de seu apagamento literário quando comparado ao alcance de alguns de seus contemporâneos argentinos. É o mantra: nem todas as mulheres, mas sempre uma mulher esquecida no rolê literário, não é mesmo?
Sigo para a leitura da história de vida de Silvina Ocampo agradecida à skoober que sugeriu que sua obra ficcional viesse primeiro. Agora, não mais reproduzirei os erros cometidos pela crítica literária ao colocarem holofotes na vida em detrimento da obra. Tiro da estante a biografia de uma ótima escritora, e não mais a de uma mera amiga de Borges e esposa de Adolfo Bioy Casares.