Julho de 1096: faz forte calor sob as muralhas de Niceia. À sombra das figueiras, nos jardins floridos, circulam notícias inquietantes: uma tropa composta por cavaleiros, infantaria, mas também mulheres e crianças, marcha sobre Constantinopla. Diz-se que trazem às costas tiras de pano em forma de cruz. Eles afirmam que estão vindo para exterminar os muçulmanos pelo caminho até Jerusalém, e estão chegando aos milhares. Trata-se dos franj - os francos, segundo os árabes. Eles permanecerão por dois séculos na Terra Santa, saqueando e massacrando para a glória de seu deus. Esta bárbara incursão do Ocidente no coração do mundo muçulmano marca o início de um longo período de decadência e obscurantismo. Ainda hoje é sentida, no Islã, como a pior das violações. As cruzadas vistas pelos árabes é a história ''ao contrário''. De origem libanesa, Amin Maalouf escreveu um romance com base nos olhos árabes e, para isso, recorreu às obras de historiadores arabistas medievais. Neste romance histórico, príncipes islâmicos difamados pelos cronistas ocidentais, como Noradine, Saladino e Baibars, são apresentados como heróis. Inversamente, os ''cruzados'' tornam-se bárbaros, ou pior ainda, ''os canibais de Maarate''. Como no seu romance Léon l’Africain [Leão, o Africano], Amin Maalouf propõe uma nova imagem do mundo árabe, para ver apreciada para um público mais amplo.
As cruzadas vistas pelos árabes [ebook] -
Amin Maalouf
A Outra Ponta Do Telescópio
Esgotado há anos e vendido por uma quantia exorbitante desde então, As Cruzadas Vistas Pelos Árabes, do líbano-francês Amin Maalouf, acaba de ser republicado pela Editora Vestígio com tradução de Júlia da Rosa Simões. Uma boa notícia, pois com o preço novamente acessível o livro poderá ser conhecido por um número maior de interessados. Aliás, desde o lançamento na França, em 1983, seu conteúdo tem se redimensionado em razão do acirramento das relações entre o Ocidente e o Oriente Médio. Resumidamente, o autor aborda cerca de dois séculos de história, desde a chegada dos primeiros cruzados em Jerusalém em 1096, até a queda de São João de Acre em 1291, empreendendo uma consiste investigação dos motivos e justificativas de cruzados e muçulmanos, bem como alianças, traições, e conflitos ocorridos entre os eles na época. Entretanto, se assim como eu, você anda meio enferrujado sobre o assunto, faz 48 anos que estudei para o vestibular, minha sugestão é rememorar os acontecimentos, optando por um livro de História, ou consultando a internet. Concluída essa etapa, finalmente iniciei a leitura da obra que se trata de um ensaio formado por vários relatos de cronistas e historiadores árabes. Por sinal, conforme seu título indica, ela exibe uma outra perspectiva, inusitada e cativante, do que houve. Sem certo ou errado, de acordo com o historiador Alain Decaux, “é como se o leitor estivesse vendo a outra ponta de um telescópio, em que ambas as imagens dificilmente coincidem”, mas se complementam. Curiosamente, apenas no Prólogo e no Epílogo, Maalouf emprega a palavra “cruzada”, opta por guerras ou invasões, assim como ele enfatiza a riqueza da cultura e a pluralidade étnica-religiosa do Oriente Médio que se considerava guardião desse patrimônio e da fé islâmica. Da mesma forma, ao exibir a difícil relação entre os dois lados, o escritor expõe como a ingerência europeia nas disputas internas propiciou o enfraquecimento da região. Portanto, a despeito de serem apontados como vencedores, pois expulsaram o inimigo de suas terras, os árabes arcaram com a maior parte do ônus das Cruzadas. A bem da verdade, “se para a Europa ocidental a época das cruzadas foi o início de uma verdadeira revolução, tanto econômica quanto cultural, no Oriente as guerras santas levariam a longos séculos de decadência e obscurantismo. Sitiado por todos os lados, o mundo muçulmano se encolheu sobre si mesmo. Ele se tornou medroso, defensivo, intolerante, estéril, atitudes que se agravaram à medida que prossegue a evolução do mundo, em relação à qual ele se sente marginalizado.” (Página 330) Boa leitura!
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