Esgotado há anos e vendido por uma quantia exorbitante desde então, As Cruzadas Vistas Pelos Árabes, do líbano-francês Amin Maalouf, acaba de ser republicado pela Editora Vestígio com tradução de Júlia da Rosa Simões.
Uma boa notícia, pois com o preço novamente acessível o livro poderá ser conhecido por um número maior de interessados. Aliás, desde o lançamento na França, em 1983, seu conteúdo tem se redimensionado em razão do acirramento das relações entre o Ocidente e o Oriente Médio.
Resumidamente, o autor aborda cerca de dois séculos de história, desde a chegada dos primeiros cruzados em Jerusalém em 1096, até a queda de São João de Acre em 1291, empreendendo uma consiste investigação dos motivos e justificativas de cruzados e muçulmanos, bem como alianças, traições, e conflitos ocorridos entre os eles na época.
Entretanto, se assim como eu, você anda meio enferrujado sobre o assunto, faz 48 anos que estudei para o vestibular, minha sugestão é rememorar os acontecimentos, optando por um livro de História, ou consultando a internet.
Concluída essa etapa, finalmente iniciei a leitura da obra que se trata de um ensaio formado por vários relatos de cronistas e historiadores árabes. Por sinal, conforme seu título indica, ela exibe uma outra perspectiva, inusitada e cativante, do que houve. Sem certo ou errado, de acordo com o historiador Alain Decaux, “é como se o leitor estivesse vendo a outra ponta de um telescópio, em que ambas as imagens dificilmente coincidem”, mas se complementam.
Curiosamente, apenas no Prólogo e no Epílogo, Maalouf emprega a palavra “cruzada”, opta por guerras ou invasões, assim como ele enfatiza a riqueza da cultura e a pluralidade étnica-religiosa do Oriente Médio que se considerava guardião desse patrimônio e da fé islâmica. Da mesma forma, ao exibir a difícil relação entre os dois lados, o escritor expõe como a ingerência europeia nas disputas internas propiciou o enfraquecimento da região.
Portanto, a despeito de serem apontados como vencedores, pois expulsaram o inimigo de suas terras, os árabes arcaram com a maior parte do ônus das Cruzadas. A bem da verdade, “se para a Europa ocidental a época das cruzadas foi o início de uma verdadeira revolução, tanto econômica quanto cultural, no Oriente as guerras santas levariam a longos séculos de decadência e obscurantismo. Sitiado por todos os lados, o mundo muçulmano se encolheu sobre si mesmo. Ele se tornou medroso, defensivo, intolerante, estéril, atitudes que se agravaram à medida que prossegue a evolução do mundo, em relação à qual ele se sente marginalizado.” (Página 330)
Boa leitura!