Mehmed-Paxá, Grão-vizir, ainda guarda na memória a manhã de 1516, quando, em criança, foi separado da sua família cristã ortodoxa e forçado juntamente com outros rapazes a atravessar o rio, rumo a Istambul, para servir nas falanges de janíçaros. Décadas depois, convertido ao islão, é ele que dá a ordem de construção de uma ponte sobre o rio Drina em Višegrad, assim ligando Ocidente e Oriente. Ao longo dos séculos, a ponte foi local de passagem, de encontros, de conversas, de conspirações; sofreu inundações, foi encerrada para impedir o alastrar da peste e presenciou suicídios; sobre ela transitaram exércitos em fuga e desfilaram outros vitoriosos; nela foram executados espiões; nela se assistiu ao desmoronar de impérios e ao nascer de novas nações. Grande épico europeu e uma das obras-primas da Literatura mundial, A Ponte sobre o Drina, de Ivo Andric, Prémio Nobel de Literatura em 1961, é um romance-crónica que abarca quatro séculos – do século XVI ao início do século XX – e entrelaça a marcha da História com a tradição oral e as lendas, dando vida a personagens de diferentes origens, culturas e credos que gravitam em torno de uma inabalável estrutura arquitectónica. Tradução do sérvio de Lúcia Stankovic e Dejan Stankovic
A Ponte sobre o Drina -
Ivo Andric
Quatro séculos de história
1. Publicado em 1945, A Ponte sobre o Drina é a obra-prima do escritor bósnio Ivo AndriÄ, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1961. O romance que em minha opinião não é se destaca por ser uma leitura fácil - se avulta por sua abordagem histórica e social, narrando quatro séculos da conturbada região dos Bálcãs a partir da perspectiva de uma ponte sobre o rio Drina, na cidade de Viegrad (atual Bósnia e Herzegovina). 2. A construção da ponte no século XVI, ordenada pelo grão-vizir otomano Mehmed Paa SokoloviÄ, marca o início do livro. A partir desse ponto, AndriÄ narra a vida dos habitantes da cidade e os eventos históricos que os afetam, desde o domínio otomano até o início da Primeira Guerra Mundial. A ponte personagem principal dessa narrativa - representa a permanência e a conexão entre diferentes culturas, etnias e religiões sérvios, bósnios, turcos, judeus e austro-húngaros , mas também é palco de conflitos, execuções e mudanças drásticas. 3. O romance possui um tom épico e uma prosa fluida (mas densa), misturando elementos de realismo histórico e lirismo. AndriÄ constrói personagens complexas que representam as diversas camadas sociais, étnicas e políticas da região. Em meio a disputas entre cristãos e muçulmanos, avanços tecnológicos e guerras, o autor não toma partido, mas expõe com sensibilidade os ciclos de violência e resistência dos Bálcãs. 4. A chegada dos austríacos no século XIX traz inovações que transformam a cidade, mas também aumentam as tensões entre os povos locais, evidenciando o choque entre tradição e modernidade. Ainda, ao narrar a tentativa de união, por meio da ponte, entre culturas distintas, a narrativa confirma a fragilidade da paz, pois guerra e conflitos são uma constante. 5. AndriÄ também discorre sobre a passagem do tempo quando mostra como as personagens são afetadas pelas grandes mudanças políticas e sociais, bem como discuti sobre permanência e atemporalidade ao retratar a ponte imutável que pouco de altera ao longo dos séculos, independentemente do que ocorra ao seu redor. 6. A Ponte sobre o Drina não é apenas um romance histórico; é um retrato profundo da complexidade dos Bálcãs e da fragilidade das fronteiras culturais e políticas. Por meio dessa obra é possível começar entender as raízes dos conflitos da região e apreciar uma literatura rica e humanista.
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