Após passar meses lendo esse livro, percebo como a autora George Eliot tem um cuidado com os temas e situações da vida cotidiana, passando por momentos de pura delicadeza ao extremo desespero ao colocar os personagens sob uma lupa e canalizar todos os males da sociedade do século 19. Tendo já lido da autora o incrível Middlemarch, caracterizo como modus operandi dela a sutileza e refinamento expressos tanto na história quanto nos personagens, transformando-os em indivíduos tão próximos de nós que parecem com um amigo ou vizinho que você já conheceu.
Dito isso, nesse livro (obviamente) não vai faltar bela escrita e diálogos extensos e filosóficos, e é nisso tudo que se encontra a história de Daniel Deronda, que, sendo um órfão deixado aos cuidados de Sir Hugo Mallinger, cresce sob os cuidados do tutor e é criado como filho. E nessa confusão, Deronda questiona sua origem e passa o livro inteiro nessa procura.
Mas calma, que mesmo o livro tendo um protagonista masculino interessante, quem rouba a cena é a Gwendolen, que encanta qualquer um com sua beleza e língua ferina e mordaz, abrindo o livro numa das aberturas de um romance mais pitoresca e peculiar ao encontrar por acaso enquanto jogava na roleta o nosso Daniel Deronda. Gwendolen, sendo criada cheia de mimos e conforto, não consegue lidar com a recente ruína de sua família e, apavorada com a perspectiva de trabalhar (e para ajudar sua família), acaba fazendo um péssimo casamento.
E esse casamento sendo com o Sr. Grandcourt, o homem mais odioso que ela poderia encontrar para se casar, que mesmo dando para a Gwendolen e sua família todo o conforto possível, não deixa de ser maldoso e cretino com ela. E sabemos que o casamento foi sem amor e foi feito praticamente em um ato de desespero por Gwendolen, mas mesmo assim, quando eu passava as páginas onde relatava precisamente a natureza do casamento deles, me passava uma angústia e aflição pela prisão que ela se colocou e que estava desesperada para sair.
É a partir desse momento que o destino de Gwendolen e Daniel se choca, porque tendo conhecidos em comum, eles constantemente se viam e a Gwendolen colocava o Daniel como uma salvação, não para acabar com o seu casamento, mas como um conselheiro que estava ali para aconselhá-la da melhor forma de viver nessa ''prisão'' e tirar algum proveito dessa situação, colocando a pensar não só nela mesma, mas nas outras pessoas ao redor.Então o enredo vai seguindo assim, intercalado entre a vida do Daniel e da Gwendolen, às vezes se misturando entre encontros casuais em reuniões e salões de baile.
Voltando ao Daniel, procurando por suas origens, ele esbarra em Mirah, uma mulher judia que, desesperada pelos infortúnios, decide se afogar, sendo salva a tempo por ele. A partir desse ponto, saúdo ainda mais a autora por colocar de uma forma tão respeitosa a cultura judia, contando sobre a história da religião, e algo para se admirar num livro de 1876.
A narrativa é bastante clara quando apresenta um sutil interesse amoroso entre Gwendolen e Daniel e nas formas variadas de se amar e apaixonar por alguém, colocando Gwendolen como uma fiel seguidora dos princípios impostos por Daniel, assemelhando-o a um anjo que veio apenas para lhe dar conselhos e direções para seguir. Já o Daniel vê na Gwendolen uma mulher em constante sofrimento e tenta auxiliá-la da melhor forma que pode. E o livro sugere que, após um certo acontecimento, eles dois vão ficar juntos no final, mas acaba chegando a Mirah que balança o coração do protagonista. Entendo todo o contexto que a autora criou para o final, por isso mesmo torcendo pela Gwendoilen ficar com Daniel, reconheço que o livro é muito mais que uma disputa num triângulo amoroso, por isso respeito o final condizente com a história que a autora criou.