Os moedeiros falsos - (eBook)

    André Gide

    Culturama Plural
    2022
    400 páginas
    13h 20m
    ISBN-10: B0B75S69Y4
    Português Brasileiro

    Neste livro do francês André Gide, acompanhamos os protagonistas Édouard, Bernard e Olivier em um emaranhado de sensações e encontros, nos quais eles se definem e se redefinem a todo o momento. Bernard foge da casa dos pais, e vai encontrar abrigo com Olivier, seu amigo. Os dois jovens, mais tarde, encontram o tio de Olivier, Édouard, um pouco mais velho que eles. O caleidoscópio de personagens e de situações vai se construindo sem uma ordem cronológica definida, e ao longo do texto vamos acompanhando um romance dentro de uma outra obra. Afinal, entre suas páginas lemos também, mas não só, os diários de Édouard, um escritor que planeja escrever um livro chamado de, precisamente, “Os moedeiros falsos”. Em seus escritos, ele descreve coisas do cotidiano, mas também reflete sobre o papel da literatura e do romance, utilizando-se assim da metaliteratura. Nesta forma inusitada de apresentar a história, Gide extrapolou as narrativas tradicionais e se consagrou como o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1947.

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    Luigi21/09/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Um pouco sobre Os Moedeiros Falsos, de André Gide

    Um bom escritor pode demonstrar seus talentos por meio de algumas características basais para a reverência dentro das letras. Pode ser um ótimo criador de personagens e tipos; ser um argumentista sólido, com bons diálogos; pode dosar bem seus símbolos sem deixar a obra pedante ou intratável pelo público médio; talvez saiba como elaborar uma boa história, de início ao fim, prendendo o leitor em cada página, ansioso por saber a conclusão. André Gide (1869-1951), escritor francês e Nobel de Literatura em 1947, junta todas essas características em sua obra-prima, Os Moedeiros Falsos (1925), e ainda nos brinda com uma aula sobre o formato romance e a boa literatura.    Resumir a história de Os Moedeiros Falsos, um dos maiores clássicos da literatura francesa e universal, é uma tarefa quase impossível. São tantos os acontecimentos que Gide nos apresenta, de tantos pontos de vista e, inicialmente, tão desconexos, que o leitor se encontrará sendo guiado às cegas por um escritor que sabe muito bem quais sensações -- e sem dúvidas a confusão é uma delas -- quer despertar no leitor e quando as fará emanar, tendo a percepção do interlocutor em relação a obra como uma das características fulcrais para o tema principal dentro da vasta miscelânea de tópicos abordados: a distinção entre realidade e o que entendemos ser a realidade.    Acompanhamos o núcleo basal de três personagens (os jovens Bernard e Olivier e o tio-escritor deste, Édouard) e as ramificações numa gama incontável de personalidades e situações; muitas vezes, estas são tão absurdas e inusitadas que não vemos, primeiramente, a conexão em que irá ornar com o resto da trama, mas André Gide não deixa uma ponta solta que seja, fato que a transforma em uma obra inesgotável e, de acordo com o próprio autor em relação a sua carreira como um todo, feita para leitores que não se cansam, pois com toda a certeza uma segunda e consequentes leituras e releituras irão enriquecer ainda mais a percepção sobre as camadas de Os Moedeiros Falsos.    Assim como em Dom Casmurro de Machado, O Grande Gatsby de Fitzgerald e tantas outras obras, Gide lida com a confiança do leitor em relação as palavras ditas pelas personagens, com o adendo de elevar esta característica a mote da trama. Os moedeiros falsos da trama são um pano de fundo para buscarmos visualizar se o que vemos é a realidade ou um foco de luz sobre ela. Cada trama, de modo muito hábil, vai sendo contada gradualmente por cada personagem que nos é apresentada, tendo eles visões dissonantes sobre o mundo e sobre seus semelhantes, cabendo a nós e as outras peças deste tabuleiro construído por André Gide acreditar naquilo ou não.      O caldo narrativo de Gide é engrossado pela sua paixão e conhecimento sobre a literatura e seus instrumentos. Na obra, em um exemplo perfeito de metalinguagem -- creio que, junto a Dom Quixote, seja o melhor uso desta função --, acompanhamos Édouard, tio do jovem Olivier, escrevendo um livro chamado Os Moedeiros Falsos, assim como o que temos em mãos e que foi escrito por André Gide. Por Édouard, escritor de pouco renome -- diferentemente do conde Passavant, espécie de antagonista de Édouard e que, na visão deste, se entrega a opinião popular para obter sucesso fácil --, acompanhamos a construção de um romance (mesmo que, do livro dentro do livro, só tenhamos acesso direto a poucas linhas) e o processo reflexivo para encontrar as mensagens que quer passar ao leitor futuro, enquanto a realidade -- a de Édouard e não a nossa (talvez) -- vai se confundido com a própria obra, interferindo tanto nas personagens de Gide quanto no próprio tom da obra, que vai assumindo cada vez mais, propositalmente, um ar folhetinesco e dinâmico, sem nunca esquecer seu tópico central sobre a distinção entre a realidade e a percepção que temos dela.    Tão vasto em seus temas e tão bem desenvolvido em cada característica sua, são muitos os níveis de compreensão que podemos ter da obra Os Moedeiros Falsos, uma obra inesgotável e essencial para entendermos como se constrói um bom romance, tanto por seu tema quanto pela mais simples leitura que fizermos da obra, exemplo perfeito de brilhantismo na literatura. Não à toa, Gide foi agraciado com um Nobel de Literatura, pois sua obra, como todo clássico universal deveria ser, é vasta em paixão e em técnica... E como carece a tantos autores possuir essas duas características em tão alto nível!  

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