Maurice -

    E.M. Forster

    Ercolano
    2025
    336 páginas
    11h 12m
    ISBN-13: 9786585960427
    Português Brasileiro

    Poucos romances atravessaram o tempo com a mesma envergadura e delicadeza de <i>Maurice</i>, de E.M. Forster, clássico que, após anos esgotado no Brasil, retorna ao país em edição de luxo, com tradução inédita de Antonio Farinaci. Escrita entre 1913 e 1914, mas publicada apenas postumamente em 1971, a obra tornou-se um marco da literatura mundial por sua ousadia, lirismo e pela coragem de imaginar um desfecho diferente para a homossexualidade em um tempo em que o amor entre homens era criminalizado e condenado ao silêncio. O que distingue <i>Maurice</i> de outras obras do período é sua recusa em seguir o caminho trágico reservado ao desfecho das narrativas homoeróticas. Enquanto outros romances encerravam suas histórias em suicídios, punições ou renúncias dolorosas, Forster ousou imaginar um futuro no qual dois homens poderiam viver juntos — não como exceção romântica, mas como algo concreto. Por isso, a obra é reconhecida como um dos primeiros grandes romances gays com final feliz, manifestação literária e política que ressoa até hoje, mais de cem anos após sua escrita. Em suas notas, o próprio Forster afirmou que escreveu o romance “para uma futura geração”, acreditando que somente quando o mundo estivesse mais aberto seria possível partilhá-lo. O autor já era um dos nomes consagrados da literatura inglesa no início do século XX, por conta de clássicos como <i>A Room with a View</i> (Uma Janela para o Amor) e <i>Howards End</i> (Retorno a Howards End), mas acabou escondendo Maurice por medo de perseguição. No entanto, quando a obra foi publicada em 1971, depois de sua morte e da descriminalização da homossexualidade na Inglaterra, os editores deram voz ao que Forster havia intuído: <i>Maurice</i> não era apenas um romance, mas também um símbolo de resistência. A partir de então, E.M. Forster acabou se tornando um dos pilares da literatura queer ao lado de autores como Oscar Wilde e Virginia Woolf, e segue, mais de cinquenta anos depois, dialogando com os leitores contemporâneos que ainda reconhecem, em suas páginas, ecos das próprias lutas e conquistas. A obra narra a vida de Maurice Hall, um jovem inglês de classe média-alta inglesa que, desde a adolescência, luta para conciliar os desejos de seu coração com as rígidas convenções da sociedade eduardiana. A história descreve a descoberta da sexualidade, seus encontros com amores possíveis e impossíveis e a busca incessante por viver de forma autêntica numa sociedade que insiste em negar essa possibilidade. A trama coloca em cena temas como a amizade, a repressão moral, a descoberta do desejo e a coragem de viver uma vida verdadeira. Entre as convenções da alta sociedade inglesa e a busca do desejo que desafiava as regras da época, o autor, E.M. Forster, constrói um romance de formação que incita uma reflexão sobre liberdade, identidade e amor.

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    Victor10/02/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A solidão do homem gay e o direito de existir. #38

    Escrito entre 1913-1914, e publicado postumamente em 1971, “Maurice”, obra do escritor inglês E.M. Forster (1879-1970), é um dos romances precursores da literatura ocidental no que diz respeito ao tema da homossexualidade. O nosso protagonista, Maurice, vive na Inglaterra em meados do século XX, em uma sociedade que estava no auge da expansão econômica, e concomitante engessada em valores liberais, puritanos e patriarcais. Tais valores fizeram parte da criação do Maurice, infância e adolescência, onde frequentou escolas preparatórias dominicais e internatos masculinos. Uma grande mudança ocorre na vida Maurice quando ele ingressa em Cambridge. Confronto consigo mesmo. Confronto com suas crenças. Desejos. Em Cambridge, Maurice conhece Clive Durham e logo se tornam amigos. Mas, ao passo que se tornam íntimos e confidentes, o sentimento de amizade vai dando lugar a um sentimento de amor, desejo, paixão. A relação dos dois vai se fortalecendo aos poucos, e durante esse processo tanto Maurice quanto Clive começam a identificar seus desejos e buscam a compreender a natureza destes. Para Maurice, o que ele sente por Clive é manifestado naturalmente, faz parte do que ele é. Já para Clive o que ele sente por Maurice é uma fase, uma paixão específica, em um momento específico. A relação dos dois dura alguns anos até que o rompimento acontece por parte do Clive que acredita que sua paixão pelo Maurice se dissipou, e restou apenas o sentimento de carinho e parceria. Amizade. Isso se deve ao fato de Clive ter conhecido uma mulher, na qual, ele acredita que finalmente o amor verdadeiro se revelou. O amor heterossexual. A reação do Maurice diante da situação é totalmente passiva, ele se submete a permanecer na vida do Clive apenas como amigo, mesmo sabendo que o ama. Além disso, passa acreditar que assim como o Clive se “encontrou”, ele também pode se encontrar. Sendo assim, Maurice decide iniciar uma jornada em busca da “cura gay”. Procura ajuda médica, hipnose, e alternativas que conduzam ele para a vida ideal feliz que seu amigo Clive alcançou. Ele acredita que seus desejos e sentimentos são escolhas racionais, portanto, ele pode mudá-los, corrigi-los. Mas será mesmo que seus desejos e sentimentos são escolhas racionais? Quais serão as consequências disso? IMPRESSÕES PESSOAIS O romance Maurice é simbólico e representativo para a comunidade gay em vários aspectos. Consegue expressar a realidade gay até hoje. Os principais temas que a obra aborda são: 1) DESEJO e SENTIMENTOS É fato, é indiscutível, que o ser humano é feito de desejos e sentimentos, principalmente no campo afetivo e sexual. No entanto, quando isso é associado a uma sexualidade não-padrão, no caso, a homossexualidade, tudo muda. Para o homem gay, desejar e sentir está direta ou indiretamente ligado com à vergonha, à desaprovação, ao medo, à perseguição, à violência... à morte. A nossa experiência de vida enquanto homens gays é totalmente influenciada por esses processos de apagamento e negação quanto a nossa sexualidade, e principalmente, quanto aos nossos desejos e sentimentos. Somos obrigados a acreditar que nossos desejos e sentimentos são impuros, vergonhosos, anormais, portanto, sufocamos, reprimimos e anulamos os nossos desejos e sentimentos em diversos contextos para que a nossa existência seja garantida. Na obra tanto Maurice, quanto Clive convivem com essas angústias diariamente. “Não se enganava, apesar das rédeas que mantinha sobre a carnalidade. Podia controlar o corpo, mas era sua alma maculada que zombava de suas preces” (pg. 78). 2) A SOLIDÃO DO HOMEM GAY Uma vez eu assisti uma palestra no TED x Talks de um pesquisador e ativista gay inglês, e em um determinado momento ele falou “Todas as crianças gays nascem em ilhas”. Nunca vi tanta verdade em uma frase. Independente se a nossa família acolha ou não a nossa sexualidade, a solidão será sempre parte da nossa existência enquanto homens gays. Desde o nosso nascimento até nossa vida adulta, estamos sempre em busca de aprovação. Quando somos gays, isso se intensifica, pois além da busca pela aprovação, buscamos também o pertencimento, e esse pertencimento nunca está fora do meio gay. Basta olharmos a nossa volta. Existem bares gays e bares de héteros, existem baladas de gays e baladas de héteros, existem bairros gays e bairros de héteros, e isso se desdobra em tantos outros campos. Guetos. A solidão generalizada que nós experienciamos, faz com que a gente sempre busque referências e contextos gays para nos sentirmos minimamente acolhido. Em “Maurice”, vemos a condição de um homem gay solitário, e que infelizmente na época em que se passa a história, referências e contextos gays eram inexistentes. Maurice é obrigado a lidar consigo sem nenhum apoio de semelhantes. “Não tinha um Deus, não tinha um amor – os dois incentivos habituais à virtude. Mas lutava dando as costas para o conforto, pois a dignidade assim o exigia” (pg. 149). 3) O DIREITO de EXISTIR Há uma diferença significativa entre viver e sobreviver. Na maioria das vezes, nós homens gays não vivemos, nós sobrevivemos. E para sobreviver nós temos que renunciar a nossa identidade, renunciar a nossos desejos, sentimentos, renunciar o eu por contra do outro. Perdas. “Dedicado a um ano mais feliz” essa é a frase que o E.M. Forster insere na dedicatória do livro. Com essa citação o autor defende se posiciona em defesa da existência do homem gay, da vivência do homem gay, e sobretudo, da felicidade do homem gay. Forster acreditava que poderia sim, no meio de tanto ódio, violência, intolerância, existir a possibilidade de um homem gay viver, sentir e experienciar o amor, o afeto, a felicidade. E talvez seja por esse motivo, que “Maurice” seja uma obra simbólica e representativa para nossa comunidade gay, pois, diferente de outras histórias sobre a homossexualidade que foram escritas no século XX, em “Maurice” o nosso protagonista consegue resistir e enfrentar os obstáculos, e o desfecho não de sua história não é uma tragédia. É um futuro feliz. Paz. Maurice não precisa mais sobreviver. Maurice agora vive. Existe. A escrita do E.M. Forster é singela, a forma como ele apresenta as cenas e os diálogos para o leitor, bem como a descrição dos personagens é muito visual. O livro é narrado em 3ª pessoa, mas isso não interfere na nossa conexão com os personagens, pelo contrário, conseguimos absorver o enredo com mais precisão, em razão da narrativa circular que o autor utiliza no texto. Além disso, o autor consegue fazer com que o leitor identifique os sentimentos do Maurice mesmo a história sendo contada em 3ª pessoa, e isso torna a história mais cativante. Por fim, é uma obra ímpar e muito relevante para o movimento LGBT na literatura, e que para nós leitores lgbt, é uma obra que vai tocar em pontos muito específicos de nossa vivência. E caso você não for um leitor lgbt, “Maurice” consegue aproximá-lo dessa realidade. A edição conta com um prefácio belíssimo de Ronald Polito e nota final do próprio autor. Deixo meu apelo às editoras brasileiras para que publiquem mais obras de E.M. Forster. Boa leitura.

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