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    Maurice -

    E. M. Forster

    Editora Globo
    2006
    264 páginas
    8h 48m
    ISBN-10: 852504119X
    Português Brasileiro
    4.3
    962 avaliações
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    Maurice, de E.M. Forster, foi escrito entre 1912 e 1913, mas só foi publicado em 1971, após a morte do autor e conforme o seu desejo. O romance narra a história de Maurice e suas paixões por outros rapazes, o que é, ainda hoje, uma temática controversa. As razões para Maurice ter permanecido inédito são explicadas, em parte, pelo próprio autor nas notas escritas em 1960 e que se encontram ao final da presente edição.

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    Victor10/02/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A solidão do homem gay e o direito de existir. #38

    Escrito entre 1913-1914, e publicado postumamente em 1971, “Maurice”, obra do escritor inglês E.M. Forster (1879-1970), é um dos romances precursores da literatura ocidental no que diz respeito ao tema da homossexualidade. O nosso protagonista, Maurice, vive na Inglaterra em meados do século XX, em uma sociedade que estava no auge da expansão econômica, e concomitante engessada em valores liberais, puritanos e patriarcais. Tais valores fizeram parte da criação do Maurice, infância e adolescência, onde frequentou escolas preparatórias dominicais e internatos masculinos. Uma grande mudança ocorre na vida Maurice quando ele ingressa em Cambridge. Confronto consigo mesmo. Confronto com suas crenças. Desejos. Em Cambridge, Maurice conhece Clive Durham e logo se tornam amigos. Mas, ao passo que se tornam íntimos e confidentes, o sentimento de amizade vai dando lugar a um sentimento de amor, desejo, paixão. A relação dos dois vai se fortalecendo aos poucos, e durante esse processo tanto Maurice quanto Clive começam a identificar seus desejos e buscam a compreender a natureza destes. Para Maurice, o que ele sente por Clive é manifestado naturalmente, faz parte do que ele é. Já para Clive o que ele sente por Maurice é uma fase, uma paixão específica, em um momento específico. A relação dos dois dura alguns anos até que o rompimento acontece por parte do Clive que acredita que sua paixão pelo Maurice se dissipou, e restou apenas o sentimento de carinho e parceria. Amizade. Isso se deve ao fato de Clive ter conhecido uma mulher, na qual, ele acredita que finalmente o amor verdadeiro se revelou. O amor heterossexual. A reação do Maurice diante da situação é totalmente passiva, ele se submete a permanecer na vida do Clive apenas como amigo, mesmo sabendo que o ama. Além disso, passa acreditar que assim como o Clive se “encontrou”, ele também pode se encontrar. Sendo assim, Maurice decide iniciar uma jornada em busca da “cura gay”. Procura ajuda médica, hipnose, e alternativas que conduzam ele para a vida ideal feliz que seu amigo Clive alcançou. Ele acredita que seus desejos e sentimentos são escolhas racionais, portanto, ele pode mudá-los, corrigi-los. Mas será mesmo que seus desejos e sentimentos são escolhas racionais? Quais serão as consequências disso? IMPRESSÕES PESSOAIS O romance Maurice é simbólico e representativo para a comunidade gay em vários aspectos. Consegue expressar a realidade gay até hoje. Os principais temas que a obra aborda são: 1) DESEJO e SENTIMENTOS É fato, é indiscutível, que o ser humano é feito de desejos e sentimentos, principalmente no campo afetivo e sexual. No entanto, quando isso é associado a uma sexualidade não-padrão, no caso, a homossexualidade, tudo muda. Para o homem gay, desejar e sentir está direta ou indiretamente ligado com à vergonha, à desaprovação, ao medo, à perseguição, à violência... à morte. A nossa experiência de vida enquanto homens gays é totalmente influenciada por esses processos de apagamento e negação quanto a nossa sexualidade, e principalmente, quanto aos nossos desejos e sentimentos. Somos obrigados a acreditar que nossos desejos e sentimentos são impuros, vergonhosos, anormais, portanto, sufocamos, reprimimos e anulamos os nossos desejos e sentimentos em diversos contextos para que a nossa existência seja garantida. Na obra tanto Maurice, quanto Clive convivem com essas angústias diariamente. “Não se enganava, apesar das rédeas que mantinha sobre a carnalidade. Podia controlar o corpo, mas era sua alma maculada que zombava de suas preces” (pg. 78). 2) A SOLIDÃO DO HOMEM GAY Uma vez eu assisti uma palestra no TED x Talks de um pesquisador e ativista gay inglês, e em um determinado momento ele falou “Todas as crianças gays nascem em ilhas”. Nunca vi tanta verdade em uma frase. Independente se a nossa família acolha ou não a nossa sexualidade, a solidão será sempre parte da nossa existência enquanto homens gays. Desde o nosso nascimento até nossa vida adulta, estamos sempre em busca de aprovação. Quando somos gays, isso se intensifica, pois além da busca pela aprovação, buscamos também o pertencimento, e esse pertencimento nunca está fora do meio gay. Basta olharmos a nossa volta. Existem bares gays e bares de héteros, existem baladas de gays e baladas de héteros, existem bairros gays e bairros de héteros, e isso se desdobra em tantos outros campos. Guetos. A solidão generalizada que nós experienciamos, faz com que a gente sempre busque referências e contextos gays para nos sentirmos minimamente acolhido. Em “Maurice”, vemos a condição de um homem gay solitário, e que infelizmente na época em que se passa a história, referências e contextos gays eram inexistentes. Maurice é obrigado a lidar consigo sem nenhum apoio de semelhantes. “Não tinha um Deus, não tinha um amor – os dois incentivos habituais à virtude. Mas lutava dando as costas para o conforto, pois a dignidade assim o exigia” (pg. 149). 3) O DIREITO de EXISTIR Há uma diferença significativa entre viver e sobreviver. Na maioria das vezes, nós homens gays não vivemos, nós sobrevivemos. E para sobreviver nós temos que renunciar a nossa identidade, renunciar a nossos desejos, sentimentos, renunciar o eu por contra do outro. Perdas. “Dedicado a um ano mais feliz” essa é a frase que o E.M. Forster insere na dedicatória do livro. Com essa citação o autor defende se posiciona em defesa da existência do homem gay, da vivência do homem gay, e sobretudo, da felicidade do homem gay. Forster acreditava que poderia sim, no meio de tanto ódio, violência, intolerância, existir a possibilidade de um homem gay viver, sentir e experienciar o amor, o afeto, a felicidade. E talvez seja por esse motivo, que “Maurice” seja uma obra simbólica e representativa para nossa comunidade gay, pois, diferente de outras histórias sobre a homossexualidade que foram escritas no século XX, em “Maurice” o nosso protagonista consegue resistir e enfrentar os obstáculos, e o desfecho não de sua história não é uma tragédia. É um futuro feliz. Paz. Maurice não precisa mais sobreviver. Maurice agora vive. Existe. A escrita do E.M. Forster é singela, a forma como ele apresenta as cenas e os diálogos para o leitor, bem como a descrição dos personagens é muito visual. O livro é narrado em 3ª pessoa, mas isso não interfere na nossa conexão com os personagens, pelo contrário, conseguimos absorver o enredo com mais precisão, em razão da narrativa circular que o autor utiliza no texto. Além disso, o autor consegue fazer com que o leitor identifique os sentimentos do Maurice mesmo a história sendo contada em 3ª pessoa, e isso torna a história mais cativante. Por fim, é uma obra ímpar e muito relevante para o movimento LGBT na literatura, e que para nós leitores lgbt, é uma obra que vai tocar em pontos muito específicos de nossa vivência. E caso você não for um leitor lgbt, “Maurice” consegue aproximá-lo dessa realidade. A edição conta com um prefácio belíssimo de Ronald Polito e nota final do próprio autor. Deixo meu apelo às editoras brasileiras para que publiquem mais obras de E.M. Forster. Boa leitura.

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    Edward Morgan Forster profile picture

    Edward Morgan Forster

    Edward Morgan Forster, geralmente publicado como E.M. Forster, era um romancista, ensaísta e escritor de contos. Ele é mais conhecido por seus romances irônicos e bem planejados que examinam a diferença de classe e a hipocrisia na sociedade britânica do início do século XX. Seu impulso humanista em direção à compreensão e à simpatia pode ser apropriadamente resumido na epígrafe de seu romance de 1910 Howards End: "Conecte-se somente" ("Only connect"). Ele teve cinco romances publicados em sua vida, alcançando seu maior sucesso com A Passage to India (1924), que tem como tema a relação entre Oriente e Ocidente, visto através das lentes da Índia nos últimos dias do Raj britânico. As opiniões de Forster como um humanista secular estão no centro de seu trabalho, que muitas vezes retrata a busca de conexões pessoais, apesar das restrições da sociedade contemporânea. Ele é conhecido por seu uso do simbolismo como técnica em seus romances, e tem sido criticado por seu apego ao misticismo. Seus outros trabalhos incluem Where Angels Fear To Tread (1905), A Viagem Mais Longa (1907), A Room with a View (1908) e Maurice (1971), romance publicado postumamente.

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    Edward Morgan Forster