Em direção a seus semelhantes o pássaro lança seu voo de esperança e de morte. Em direção aos seus semelhantes, um menino lança seu amor, seu desejo de vida. Longínqua semelhança, que qualquer tinta multicolorida destrói e que os preconceitos negam. Durante a II Guerra Mundial, entregue por seus pais a uma velha camponesa de uma aldeia no interior da Polônia um menino de seis anos vê-se de repente entregue a si mesmo e à sua capacidade de sobreviver. Moreno numa região de louros, suposto judeu numa época em que judeu é sinônimo de perigo, diferente entre tantos iguais, ele é o "outro", aliado do demônio, enviado do sobrenatural. A pobreza da região liga-se à ignorância numa densa rede de crenças e superstições. O sorriso é banido na preservação dos dentes, sensíveis às influências malignas. O amor é sufocado na desconfiança. A bestialidade se agiganta contra o alvo vivo, a vítima, a presa fácil e só. Sem fronteiras, a fantasia do menino transita livremente na realidade. Ela própria tão fantástica, como estabelecer os limites? Há o medo, este sim, real e constante, único companheiro do menino ao longo de sua fuga e sua procura, longo errar de aldeia em aldeia. Há a consciência de um si mesmo desprezado, peso de uma maldição incompreensível sempre vitoriosa. Premido talvez mais pelo desespero da falta de diálogo do que peso supremo terror de nova crueldade, o menino emudece, a voz perdida com a esperança de salvação. Vencido, endossa o que acredita ser um julgamento superior e busca em si mesmo justificativas para tão tremendo castigo. Entretanto, a guerra tende ao fim. Presente ao morticínio de uma aldeia massacrada pelo cruel destacamento dos desertores bárbaros e em seguida "adotado" pelo exército russo, o menino descobre subitamente a possibilidade de ser, ele também, um igual. Ao invés de repeli-lo a nova rede social o envolve. As crenças se tornam suas crenças, os preconceitos se fazem seus. Mas o final da guerra traz também o reencontro com os pais, já agora desconhecidos. A voz, agora necessária, volta. Os pais, a sociedade, as normas, a longínqua semelhança. Em sua busca o menino alçará novo voo, tão longo e difícil quanto o voo do medo, mas eivado de esperança.
O Pássaro Pintado (Grandes sucessos série ouro) -
Jerzy Kosinski
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Jerzy Kosinski
Jerzy Kosinski nasceu em Lodz em 1933 com o apelido Lewinkopf. Após a invasão da Polónia pelos alemães em 1939, foi separado dos pais e enviado para a proteção possível de estranhos, partilhando o destino errante de milhares de crianças judias polacas. Com estudos superiores em Sociologia e Ciência Política, uma bolsa da Fundação Ford permitiu-lhe viajar para os Estados Unidos em 1957, onde se estabeleceria. Aprendendo inglês e sobrevivendo como podia, escreveu o livro de ensaios The Future Is Ours, Comrade: Conversations with the Russians sob o pseudónimo Joseph Novak. Em 1965, a edição de The Painted Bird marcaria o início de uma carreira fulgurante no mundo das letras norte-americanas. Das suas obras posteriores podem destacar-se Steps (que venceu o National Book Award de 1969), Being There e The Devil Tree. Transformado numa celebridade, Kosinski conjugava o convívio íntimo com a beautiful people da upper (e lower) Manhattan e Hollywood com o trabalho de professor, novelista, ensaísta, presidente da secção americana do PEN, fotógrafo, argumentista de cinema (adaptando Being There para Peter Sellers, no que viria a ser o último filme deste) e ator (uma intensa encarnação de Grigory Zinoviev no épico de Warren Beatty Reds). Como efeito de uma decadência física acentuada, de uma profunda depressão ou, como escreveu John Corry, por ter sido finalmente apanhado pelos seus fantasmas, Kosinski suicidou-se a 3 de Maio de 1991 em Nova Iorque.








