A obra "Luuanda: estórias", escrita por José Luandino Vieira, foi redigida entre os anos de 1963 e 1964 no cárcere, quando o autor esteve detido pela PIDE - Polícia Internacional de Defesa do Estado -, que na época era a responsável pela repressão de todas as formas de oposição ao regime colonial português imposto na Angola. O livro traz três contos narrados em terceira pessoa que retratam a vida dos moradores dos musseques de Luanda, mostrando as dificuldades vividas por eles dentro da realidade repleta de tensão entre a sociedade colonial e a sociedade angolana. São eles: "Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos"; "Estória do ladrão e do papagaio"; e "Estória da galinha e do ovo".
O primeiro conto traz a história de Zeca Santos, um rapaz desempregado que vive com sua avó, a Nga Xíxi. Os personagens vivem numa situação de miséria, na qual se veem na obrigação de comer raízes encontradas no lixo de outras pessoas para se alimentar. Mesmo assim, Zeca ainda almeja encontrar a felicidade ao lado de sua amada Delfina.
O segundo conto é o mais longo da obra, apresentando um trio de amigos: Lomelino dos Reis, Garrido Fernandes e João Miguel. O ponto de partida é a prisão de Lomelino, que foi apreendido com patos roubados, mas no decorrer da narrativa, os outros personagens são apresentados com seus próprios conflitos, e a introdução de Garrido e o roubo do papagaio Jacó dá início a essa explicação.
A terceira estória traz o conflito entre duas vizinhas, Nga Bina e Nga Zefa, a respeito da posse de um ovo posto no quintal de uma e a galinha era da outra, respectivamente. As protagonistas e um conjunto de mulheres tentam encontrar alguém que possa decidir a situação, mas acabam sempre se deparando com uma terceira pessoa que deseja o ovo para si.
Enquanto esteve preso, José Luandino teve contato com o livro "Sagarana" de João Guimarães Rosa que transformou a forma em que havia pensado escrever seus contos, propondo para a sua escrita um lugar de destaque para a oralidade. Destacada pela mistura de sentenças tanto na Língua Portuguesa, quanto no quimbundo (língua do grupo Bantu), mostra a influência do colonizador sobre os moradores dos musseques, mas também a força de sua identidade, que mesmo diante de um cenário de repressão de sua cultura, ainda conseguem mantê-la viva. Esses sinais de oralidade estão presentes não apenas nas falas dos personagens, mas na própria narração.
Confesso que não esperava me envolver tanto na história. Pela primeira vez li uma obra angolana e com o português de Portugal. Senti um pouco de dificuldade de entender as frases no início, mas conforme continuei a leitura essa compreensão foi cada vez mais abrangente. É evidente que as características literárias de José Luandino são incríveis, o autor usa uma linguagem poética para descrever cenários, situações e sentimentos, o que me deixou tocada em muitos momentos diante da miséria e preconceito num ambiente de colonização portuguesa, fatos que infelizmente não deixam de ser assuntos atuais.
Os personagens de modo geral, principalmente nos dois primeiros contos, embora não tenham sido descritos com detalhes, possuem sentimentos palpáveis que nos fazem reconhecer suas características. O autor não nos diz quem os personagens são, ele nos mostra.
Apesar de ser uma obra importante para a literatura, é necessário haver um conhecimento prévio sobre o contexto em que foi redigida, já que muitas informações quando desconhecidas, podem prejudicar o aproveitamento completo da leitura para quem não tem conhecimento da história colonial da Angola. Claro que você pode ler sem essas informações, mas a experiência fica mais interessante entendendo o contexto.