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    Luuanda - Estórias

    Luandino Vieira

    Companhia das Letras
    2006
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-10: 8535909184
    Português
    3.9
    270 avaliações
    Leram509Lendo50Querem296Relendo1Abandonos10Resenhas16
    Favoritos21Desejados296Avaliaram270

    A voz de Angola em três "causos" de um dos maiores nomes da literatura luso-africana, vencedor do Prêmio Camões 2006. As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino. E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo). Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.

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    Helen Oliveira picture
    Helen Oliveira12/07/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    LUUANDA: oralidade e identidade

    A obra "Luuanda: estórias", escrita por José Luandino Vieira, foi redigida entre os anos de 1963 e 1964 no cárcere, quando o autor esteve detido pela PIDE - Polícia Internacional de Defesa do Estado -, que na época era a responsável pela repressão de todas as formas de oposição ao regime colonial português imposto na Angola. O livro traz três contos narrados em terceira pessoa que retratam a vida dos moradores dos musseques de Luanda, mostrando as dificuldades vividas por eles dentro da realidade repleta de tensão entre a sociedade colonial e a sociedade angolana. São eles: "Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos"; "Estória do ladrão e do papagaio"; e "Estória da galinha e do ovo". O primeiro conto traz a história de Zeca Santos, um rapaz desempregado que vive com sua avó, a Nga Xíxi. Os personagens vivem numa situação de miséria, na qual se veem na obrigação de comer raízes encontradas no lixo de outras pessoas para se alimentar. Mesmo assim, Zeca ainda almeja encontrar a felicidade ao lado de sua amada Delfina. O segundo conto é o mais longo da obra, apresentando um trio de amigos: Lomelino dos Reis, Garrido Fernandes e João Miguel. O ponto de partida é a prisão de Lomelino, que foi apreendido com patos roubados, mas no decorrer da narrativa, os outros personagens são apresentados com seus próprios conflitos, e a introdução de Garrido e o roubo do papagaio Jacó dá início a essa explicação. A terceira estória traz o conflito entre duas vizinhas, Nga Bina e Nga Zefa, a respeito da posse de um ovo posto no quintal de uma e a galinha era da outra, respectivamente. As protagonistas e um conjunto de mulheres tentam encontrar alguém que possa decidir a situação, mas acabam sempre se deparando com uma terceira pessoa que deseja o ovo para si. Enquanto esteve preso, José Luandino teve contato com o livro "Sagarana" de João Guimarães Rosa que transformou a forma em que havia pensado escrever seus contos, propondo para a sua escrita um lugar de destaque para a oralidade. Destacada pela mistura de sentenças tanto na Língua Portuguesa, quanto no quimbundo (língua do grupo Bantu), mostra a influência do colonizador sobre os moradores dos musseques, mas também a força de sua identidade, que mesmo diante de um cenário de repressão de sua cultura, ainda conseguem mantê-la viva. Esses sinais de oralidade estão presentes não apenas nas falas dos personagens, mas na própria narração. Confesso que não esperava me envolver tanto na história. Pela primeira vez li uma obra angolana e com o português de Portugal. Senti um pouco de dificuldade de entender as frases no início, mas conforme continuei a leitura essa compreensão foi cada vez mais abrangente. É evidente que as características literárias de José Luandino são incríveis, o autor usa uma linguagem poética para descrever cenários, situações e sentimentos, o que me deixou tocada em muitos momentos diante da miséria e preconceito num ambiente de colonização portuguesa, fatos que infelizmente não deixam de ser assuntos atuais. Os personagens de modo geral, principalmente nos dois primeiros contos, embora não tenham sido descritos com detalhes, possuem sentimentos palpáveis que nos fazem reconhecer suas características. O autor não nos diz quem os personagens são, ele nos mostra. Apesar de ser uma obra importante para a literatura, é necessário haver um conhecimento prévio sobre o contexto em que foi redigida, já que muitas informações quando desconhecidas, podem prejudicar o aproveitamento completo da leitura para quem não tem conhecimento da história colonial da Angola. Claro que você pode ler sem essas informações, mas a experiência fica mais interessante entendendo o contexto.

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    3.9 / 270
    • 5 estrelas27%
    • 4 estrelas36%
    • 3 estrelas32%
    • 2 estrelas5%
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    José Luandino Vieira profile picture

    José Luandino Vieira

    José Luandino Vieira, nascido José Vieira Mateus da Graça é um escritor angolano. Português de nascimento, passou a juventude em Luanda, onde concluiu os estudos secundários. Por combater nas forças do MPLA durante a Guerra Colonial, contribuindo para a criação da República Popular de Angola, adquiriu a cidadania angolana. Preso pela PIDE, pela primeira vez em 1959, acusado de ligações ao movimento independentista (Processo dos 50), acabaria condenado a catorze anos de prisão, em 1961. Antes disso a Sociedade Portuguesa de Autores, então presidida por Manuel da Fonseca, pretendera atribuir-lhe o Prémio Camilo Castelo Branco, pela seu livro "Luuanda". Essa acção fez com a PIDE/DGS levasse a cabo uma acção de desmantelamento da SPA. Luandino cumpriu a pena de prisão no Campo do Tarrafal, em Cabo Verde, regressando a Portugal em 1972, com residência vigiada em Lisboa. Em 1975 regressou a Angola onde ficou até 1992. Foi director da Televisão Popular de Angola, de 1975 a 1978, diretor do Departamento de Orientação Revolucionária do MPLA, até 1979 e diretor do Instituto Angolano de Cinema, de 1979 a 1984. Participou na fundação da União dos Escritores Angolanos, de que foi Secretário-Geral (1975-1980 e 1985-1992). Foi também Secretário-Geral Adjunto da Associação dos Escritores Afroasiáticos (1979-1984). Com o fiasco das primeiras eleições livres (em 1992) e o reinício da guerra civil, acabou radicado no Minho. Vive em isolamento na propriedade de um amigo, e passou a dedicar-se à agricultura. Em 2006 foi-lhe atribuído o Prémio Camões, o maior galardão literário para a língua portuguesa. Contudo, recusou o prémio alegando motivos íntimos e pessoais, segundo um comunicado de imprensa. Entrevistas posteriores, sobretudo ao Jornal de Letras, Artes & Ideias, esclareciam que o autor não aceitara o prémio por se considerar um escritor morto e, como tal, o Prémio deveria ser entregue a alguém que continuasse a produzir. Ainda assim publicou dois livros em 2006.

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    Vila Nova de Ourém, Portugal

    José Luandino Vieira