Há livros e diários de guerras a perder de vista, tanto que chegam a ser repetitivos em muitos pontos, mas Uma Mulher em Berlim nos traz um panorama um pouco diferenciado. Ele fala sim, das dificuldades como a excassez de comida, os bombardeios e etc, mas o foco do livro é a condição feminina na guerra. Com seus maridos e parentes ausentes para lutar pelo país, essas mulheres ficam sozinhas à mercê dos soldados inimigos.
A autora do livro, anônima, é uma berlinense que viu a cidade ser invadida pelos russos. Durante esse período, fez o registro dos acontecimentos em um diário. Por ser uma mulher inteligente e culta, a escritora não só tem um texto bem construído, como também faz diversas ponderações políticas e filosóficas. O relato, cru e até mesmo frio, mostra que em situações como essa, muitas vezes as mulheres precisam deixar a dignidade de lado e se submeter aos homens em nome da sobrevivência. E aqui, eu não me refiro apenas à imprevisível violência dos soldados que pode ameaçar a vida das mulheres, mas também à fome. Ao se relacionar com os soldados, as mulheres conseguiam mantimentos trazidos por eles. E este também é um ponto digno de nota: ao trazer presentes e agrados para as mulheres com quem eles iam pra cama, os russos tentavam amenizar um fato que eles mesmo não admitiam: que eles estavam estuprando as mulheres. Havia uns e outros que realmente queriam a permissão das mulheres, mas a pressão em cima delas era tão grande que dificilmente existia a possibilidade de negar o avanço dos homens.
Nesta troca injusta, porém, a autora deste livro viu a oportunidade de sair da guerra sem grandes danos. Ela se envolvia propositalmente com militares de patentes maiores, pois assim os outros soldados não a atacariam. Um pensamento bastante calculista do tipo "melhor ser estuprada por um que por muitos". E assim ela também garantia seus suprimentos.
A atitude forte da autora é admirável, mas a desvantagem desses relatos frios e racionais é a dificuldade do leitor em se apegar à escritora. Como ela não deixa transparecer muitos sentimentos, é difícil criar um vínculo ou se compadecer da situação dela. Vez ou outra ela expõe algumas coisas, como em trechos que diz se sentir suja.
É enfim, um olhar diferente sobre a guerra. Para quem gosta de relatos reais e tragédias pode ler esse livro sem medo, principalmente pela qualidade da escrita.