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    Cinzas do Norte -

    Milton Hatoum

    Companhia de Bolso
    2010
    240 páginas
    8h 0m
    ISBN-13: 9788535917222
    Português Brasileiro
    4.1
    1327 avaliações
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    Favoritos24Desejados1766Avaliaram1327

    Em Cinzas do Norte, o amazonense Milton Hatoum aprofunda o projeto narrativo de seus livros anteriores - Relato de um certo Oriente e Dois irmãos -, ampliando o foco além do mundo familiar para escrever a "história moral" de sua geração. Cinzas do Norte, terceiro romance de Milton Hatoum, é o relato de uma longa revolta e do esforço de compreendê-la. Na Manaus dos anos 1950 e 1960, dois meninos travam uma amizade que atravessará toda a vida. De um lado, Olavo, de apelido Lavo, o narrador, menino órfão, criado por dois tios mal-e-mal remediados, que cresce à sombra da família Mattoso; de outro, Raimundo Mattoso, ou Mundo, filho de Alícia, mãe jovem e mercurial, e do aristocrático Trajano. No centro das ambições de Trajano está a Vila Amazônia, palacete junto a Parintins, sede de uma plantação de juta e pesadelo máximo de Mundo. A fim de realizar suas inclinações artísticas, ou quem sabe para investigar suas angústias mais profundas, o jovem engalfinha-se numa luta contra o pai, a província, a moral dominante e, para culminar, os militares que tomam o poder em 1964 e dão início à vertiginosa destruição de Manaus. Nessa luta que se transforma em fuga rebelde, o rapaz amplia o universo romanesco, que alcança a Berlim e a Londres irrequietas da década de 1970, de onde manda sinais de vida para o amigo Lavo, agora advogado, mas ainda preso à cidade natal. Outros fios completam o tecido ficcional de Cinzas do Norte: uma carta que o tio Ranulfo envia a Mundo, uma outra que este deixa como legado para o amigo de infância. São versões e revelações que se cruzam ou desencontram, sem jamais chegar a esgotar o enigma de uma vida singular ou a diminuir a dor da derrota final, às mãos da doença, da solidão e da violência. Neste livro, Hatoum escreve uma "história moral" de sua geração.

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    Alexandre Figueiredo picture
    Alexandre Figueiredo19/10/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Vozes em desvio

    O terceiro romance de Milton Hatoum é, sobretudo, um drama familiar. Além disso, preocupa-se em preencher suas arestas com uma análise dos tempos sombrios da ditadura militar no Brasil. É uma obra maior entre seus pares contemporâneos. Conhecido por aliar o exotismo da Amazônia com tramas sedutoras, Hatoum abre mão aqui da forte influência de sua origem libanesa, tornando “Cinzas do Norte” o mais “brasileiro” entre seus três primeiros trabalhos. Embora cultuado muitas vezes como o “maior” entre os da sua geração, comprovado pelo seu amplo prestígio da crítica, alto número de vendas para um escritor nacional que não produz literatura escapista e imenso interesse da Academia - para esse último item, procurem pelo nome do escritor no Google Acadêmico e se impressionem -, meu interesse por Hatoum foi tardio. Quis evitar me decepcionar com “Relatos de um certo Oriente” ou superestimar “Dois irmãos”. E digo, com certa felicidade, que fiz a escolha certa. Com uma narrativa meticulosamente precisa, cadenciada e, sempre que possível, densa, somos apresentados a personagens memoráveis que, agrupados em duplas, representam antíteses naturais: Lavo x Mundo, Ranulfo x Jano, Alícia x Ramira. Mesmo que demore inicialmente para se familiarizar com cada um deles, acompanhar suas evoluções gera um prazer que poucos livros conseguem. Além disso, a escolha por fragmentar os pontos de vista, aumentando as possibilidades da ficção na cabeça do leitor, são bem estimulantes. Você estranha quando algo acontece, fica um “quê” de subliminar no ar, mas depois agarra peça por peça e monta o bem pensado quebra-cabeça. Assim como nos romances anteriores, Manaus é uma personagem. E que personagem! É possível sentir o calor dos casebres à beira dos igarapés e ouvir o barulho dos animais e insetos noturnos da capital amazonense que um dia teve mais florestas que prédios. Você, ao ler, entra junto nos barcos com eles, se desloca do ponto A ao ponto B enquanto vira as páginas. Claramente um herdeiro do movimento modernista brasileiro, ainda que evoque ecos de Flaubert, seu ídolo, e emule em certos momentos um estilo elegante à maneira machadiana, nosso gigante incontestável, Hatoum cria uma obra com força própria para falar do passado de uma família, discutir as possibilidades da arte e retratar um Brasil, em especial Manaus, que insiste - e resiste - em seus próprios erros. Com uma obra tão pequena em termos quantitativos, Hatoum já está entre os grandes e, quem sabe, está próximo de figurar entre os gigantes. Vale.

    95 curtidas

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