Suor -

    Jorge Amado

    Record
    1980
    164 páginas
    5h 28m
    ISBN-10: 8501005320
    Português Brasileiro

    Nos cômodos diminutos e insalubres de um velho sobrado na ladeira do Pelourinho sobrevivem seiscentas pessoas: operários, mendigos, lavadeiras, prostitutas, desempregados, anarquistas - e muitos ratos. Ali, episódios se sucedem e se interpenetram, compondo um painel coletivo em que o personagem principal é o próprio cortiço, onde se amontoam moradores e suas histórias de vida: o homem que perdeu os dois braços num acidente de trabalho; a viúva do pedreiro que caiu do andaime porque o patrão pediu pressa na obra; a tuberculosa que tosse sem parar e não tem dinheiro para o tratamento; o pai de família que, sem condições de honrar o aluguel, acabou surrando a italiana que lhe cobrava o pagamento; o violinista que não tem onde exercer seu ofício. A lógica do lucro preside o próprio funcionamento do sobrado: os quartos são subdivididos sucessivamente e até o pátio é alugado para retirantes acamparem ao relento. O único lugar vago é o vão da escada, onde os moradores se aliviam, acumula-se o lixo e o mendigo Cabaça cria um rato de estimação. Suor retrata o cotidiano de miséria, sujeira e promiscuidade da vida urbana de Salvador. Ali, o suor de cada um, seu trabalho e sua intimidade, é ao mesmo tempo objeto de exploração e repulsa. O caráter naturalista das descrições é acompanhado de uma tomada de consciência: num contexto opressivo, em que a exploração do outro é a regra, a única saída parece ser a inspiração revolucionária.

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    Diana Tenório16/10/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Suor

    Exploração, falta de direitos dos trabalhadores e miséria compõem o pano de fundo do terceiro romance escrito pelo Jorge Amado quando ele tinha, em 1934, 22 anos. “Suor” não tem um personagem principal, mas conta, em pequenas narrativas, as histórias de algumas pessoas que vivem nesse prédio, que é uma espécie de cortiço, localizado no Pelourinho. Eu me senti totalmente imersa nas primeiras páginas do livro porque as condições subumanas são descritivamente denunciadas. A escrita do Jorge é tão simples e objetiva, que chega a ser palpável. Vi pessoas dividir pequenos espaços com ratos, vi mulheres vendendo os seus corpos em troca de comida, vi homens roubando para sustentar suas famílias, vi o patrão enricar e o empregado definhar cada vez mais em sua pobreza, vi gente doente de corpo e alma. Eu vi o suor dos trabalhadores sendo derramado. Eu vi a revolução não acontecer. A corda só quebra do lado mais fraco. Me revoltei, me compadeci e me diverti com os personagens da história que contavam as suas histórias. A gente precisa rir pra não chorar e eu vi isso na vida dessas pessoas. Terminei com um sentimento estranho de vazio, talvez seja porque a injustiça ainda impera e a maioria seja subjugada a condições tão desiguais. É utopia acreditar em um mundo justo, mas torço para que, pelo menos, quem sabe que deve fazer o bem, assim o faça. O jornal estava com muita matéria política, de forma que deu apenas uma notícia de meia coluna com o retrato do morto, no necrotério. O título, em letras gordas, opinava: COVARDE COMO ESTAVA SEM TRABALHO ENFORCOU-SE. Vinha a notícia: Os moradores do sobrado nº 68 à ladeira do Pelourinho acordaram esta manhã com a notícia de que um homem se enforcara num quarto do terceiro andar. Tratava-se de Miguel de Tal, português, operário, que há meses fora despedido da Fábrica Ribeiro. Achando-se sem trabalho, devendo três meses de casa, enforcou-se nas traves do seu quarto com um lençol. O desditoso suicida contava 54 anos e há 38 residia no Brasil. Não deixa parentes. É mais um caso de covardia ante a vida. Porque perdeu um emprego, preferiu desertar, sem se esforçar por conseguir outro. Porque, com o maior orgulho o dizemos, se há um país onde a situação do operário seja de absoluto bem-estar, esse país é o Brasil, onde não falta trabalho para os que não são preguiçosos. (páginas 94 e 95).

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