O terceiro romance de Jorge Amado demonstra a maturidade precoce do escritor baiano ao narrar o microcosmo de um cortiço no Pelourinho no começo dos anos 1930. Um casarão do Pelourinho transformado em cortiço, com suas dezenas de moradores pobres e marginalizados, é o ambiente de Suor, publicado em 1934, quando Jorge Amado tinha 22 anos. De modo cru, mas com sua característica prosa envolvente e calorosa - sempre atenta à musicalidade da fala popular -, Jorge narra um cotidiano de miséria, falta de higiene e ausência de perspectivas. Nos quartos precários do cortiço, homens e mulheres convivem com ratos e baratas e dão vazão às pulsões mais básicas. Os diversos personagens ganham em algum momento o primeiro plano do relato. Há o mascate judeu que percorreu o mundo e fala oito línguas, o homem sem braços que faz propaganda de lojas, a velha prostituta que não consegue mais arranjar freguês, o operário anarquista que vive com um gato, a costureira que sonha com um casamento para a afilhada virgem, entre outras figuras sofridas. Jorge Amado cria ao mesmo tempo um painel social e um estudo sutil dos sentimentos humanos que florescem nas situações mais adversas. Apesar da dureza do dia a dia, o humor e a solidariedade encontram frestas para se manifestar, e uma crescente consciência política se espalha entre alguns moradores do cortiço.
Suor -
Jorge Amado
Suor
Exploração, falta de direitos dos trabalhadores e miséria compõem o pano de fundo do terceiro romance escrito pelo Jorge Amado quando ele tinha, em 1934, 22 anos. “Suor” não tem um personagem principal, mas conta, em pequenas narrativas, as histórias de algumas pessoas que vivem nesse prédio, que é uma espécie de cortiço, localizado no Pelourinho. Eu me senti totalmente imersa nas primeiras páginas do livro porque as condições subumanas são descritivamente denunciadas. A escrita do Jorge é tão simples e objetiva, que chega a ser palpável. Vi pessoas dividir pequenos espaços com ratos, vi mulheres vendendo os seus corpos em troca de comida, vi homens roubando para sustentar suas famílias, vi o patrão enricar e o empregado definhar cada vez mais em sua pobreza, vi gente doente de corpo e alma. Eu vi o suor dos trabalhadores sendo derramado. Eu vi a revolução não acontecer. A corda só quebra do lado mais fraco. Me revoltei, me compadeci e me diverti com os personagens da história que contavam as suas histórias. A gente precisa rir pra não chorar e eu vi isso na vida dessas pessoas. Terminei com um sentimento estranho de vazio, talvez seja porque a injustiça ainda impera e a maioria seja subjugada a condições tão desiguais. É utopia acreditar em um mundo justo, mas torço para que, pelo menos, quem sabe que deve fazer o bem, assim o faça. O jornal estava com muita matéria política, de forma que deu apenas uma notícia de meia coluna com o retrato do morto, no necrotério. O título, em letras gordas, opinava: COVARDE COMO ESTAVA SEM TRABALHO ENFORCOU-SE. Vinha a notícia: Os moradores do sobrado nº 68 à ladeira do Pelourinho acordaram esta manhã com a notícia de que um homem se enforcara num quarto do terceiro andar. Tratava-se de Miguel de Tal, português, operário, que há meses fora despedido da Fábrica Ribeiro. Achando-se sem trabalho, devendo três meses de casa, enforcou-se nas traves do seu quarto com um lençol. O desditoso suicida contava 54 anos e há 38 residia no Brasil. Não deixa parentes. É mais um caso de covardia ante a vida. Porque perdeu um emprego, preferiu desertar, sem se esforçar por conseguir outro. Porque, com o maior orgulho o dizemos, se há um país onde a situação do operário seja de absoluto bem-estar, esse país é o Brasil, onde não falta trabalho para os que não são preguiçosos. (páginas 94 e 95).
Estatísticas
Avaliações
3.9 / 860- 5 estrelas24%
- 4 estrelas39%
- 3 estrelas31%
- 2 estrelas5%
- 1 estrelas1%



