Se eu devesse classificar este livro de Cláudio Moreno, diria enfaticamente: É um livro delicioso! Seduz na primeira página, abre janelas sobre novas realidades que a gente vinha banalizando e, por isso mesmo, transforma a nossa visão. É uma leitura que melhora nossa perspectiva, nos deixa mais alegres, mais alimentados intelectualmente e emocionalmente confortados. (...) Com sua prática de professor, sua sabedoria de erudito e sua simplicidade de ser humano que está acima das vaidades acadêmicas ou competições literárias, Moreno nos leva a passear por uma alameda de significados que já eram nossos, nos pertenciam, faziam parte de nossa vida como as pedras da calçada ou as árvores das praças – mas a gente nem sabia. Trecho da apresentação de Lya Luft
Um rio que vem da Grécia -
Claudio Moreno
Edições (1)
Ver maisO Protótipo das Noites Gregas.
Há um problema de elétrica na sua casa. Após tanto quebrar a cabeça, você chama um eletricista, que em um minuto resolve o problema que lhe tomou horas; você, quando paga o valor total, o faz com um pesinho na consciência, oitenta reais pelo trabalho de um minuto?! A gente, normalmente, não leva em conta que esse um minuto, consumiu centenas de horas de estudo e prática do profissional, e é isso que pagamos. Esse é o caso do Professor Cláudio Moreno, quando em cinquenta minutos, aproximadamente, reconta os mitos (mas não só, faz muito mais que recontar) no seu Podcast Noites Gregas. Se fosse resenhar o podcast da mesma maneira que resenho os livros aqui, com certeza daria cinco estrelas; o Professor é um exímio contador de histórias, o melhor que já ouvi de Mitologia no Brasil, e não canso de recomendá-lo. Seu público um exemplo da habilidade narrativa do Professor varia de docentes, universitários de letras vernáculas, até donas de casa e marinheiros de primeira viagem nos assuntos gregos. Não me canso de recomendá-lo, experimente o Podcast e veja por si só. (Encontra-se, atualmente, no Episódio #44 Medeia, inicia com os Deuses do Olimpo e pretende ir até por volta de oitenta, passando por toda a Mitologia Grega). Essa eximia narração traz consigo longos anos de atuação nas salas de aulas, palestras, discursos e muitos escritos. Um Rio que vem da Grécia e Troia (o livro seguinte, que pretendo ler), são exemplos desses escritos. Também um grande gramático, não é surpresa que as crônicas e anedotas são muito bem escritas, nisso não há o que criticar; o problema, no entanto, é na decisão do Moreno de influir uma certa dose de moral no fim de toda entrada, que em alguns casos, é bastante inspirada, mas ao longo do livro, a fórmula cansa. Ele é muito melhor quando trabalha no vazio deixado pelas histórias; quando constrói diálogos, narra acontecimentos, dá sentimentos e personalidade às personagens, narra movimentos e ações sutis que não estavam lá originalmente, é delicioso; faz muito disso no Podcast, mas, poucas vezes neste livro. A título de exemplo, uma entrada que ilustra minha relação conturbada com este livro encontra-se na crônica Como se Fossem as Últimas. Protiselau, um adolescente apaixonado, recém-casado e com uma vida toda pela frente, foi um dos convocados para a Guerra de Tróia, "quando a armada grega chegou diante de Tróia, os navios ficaram flutuando além da rebentação, sem começar o desembarque; é que um oráculo rezava que o primeiro a pisar naquela praia ia morrer ali mesmo. De pé. na proa de seus navios, prontos para saltar em terra, os guerreiros se entreolhavam, hesitantes; ninguém queria sacrificar-se. Foi quando Protesilau, um dos jovens chefes da Tessália, mandou os remadores avançarem e pulou na água rasa, correndo para a praia, em direção aos troianos. Foi o seu fim: uma lança atravessou o seu escudo e atingiu-o no pescoço, matando-o instantaneamente." Inerentemente uma história interessante, que eu não conhecia, e que deixa diversas perguntas e espaços a serem preenchidos pela imaginação: por exemplo, por qual razão, um jovem com uma vida pela frente, sacrificou-se dessa maneira? Já vi romances psicológicos inteiros serem construídos em espaços menores que este No entanto, o Moreno conclui assim, após uma breve retomada na história do rapaz, totalmente anti-climático, na minha concepção: Bem menos triste, no entanto - e muito mais produtivo - é imaginar que, como Protesilau, voltamos agora para casa para viver as três horas que os deuses nos deram de inhapa, e tratar de aproveitar nossos últimos 180 minutos, esse tempo raro e valioso que ganhamos de presente. Se conseguirmos entrar no jogo, tudo - até um copo com água fresca - vai ficar mais precioso, mais pungente. É claro que não agüentamos toda essa intensidade por mais de três horas, mas não faz mal. Amanhã recomeçamos." Isso se repete ao longo de quase todo o livro, e vai cansando; é tudo muito interessante, até chegar ao último parágrafo. É muito bom ouvir as histórias da Grécia em geral, sabedorias comuns, acontecimentos popularizados e eternizados, personagens famosos, doses cavalares dos sempre tão interessantes episódios mitológicos um pouco do Égito, esticando-se até a Dinamarca: há uma entrada bem boa sobre o sábio Rei Canute, que ganhou popularidade recentemente pelo mangá Vinland Saga; as referências também são extensas, desde Heródoto, Plinio, Aulo Gélio, até Jorge Luis Borges e Lawrence das Arábias, portanto, não posso deixar de recomendar para quem se interessa em ler brevemente sobre esses episódios; apenas, tenha paciência, e, leia as crônicas espaçadamente. Enquanto o Podcast não chega ao seu final, e eu fico aqui aguardando com a mesma ansiedade que esperava o episódio de domingo das primeiras temporadas de Game of Thrones, vou me aventurar no segundo livro do Professor, que trata da Guerra de Tróia; e manter-me afastado do seu Grécia Cem Lições para Viver Melhor, que, pelo que o título indica, segue a mesma fórmula desse aqui.
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