Toda vez que leio algo de Nelson Rodrigues, parece que estou tendo uma aula de como escrever pois a mensagem é tão obviamente clara que o livro parece grudar nas mãos e a leitura fica impossível de parar.
Certa vez alguém me disse que o incesto é o último grande tabu das artes, e podemos ver isso no fato de algumas grandes obras retratam-no enquanto outras são igualmente criticadas. O Anjo Pornográfico sempre teve os dois acontecimentos ao mesmo tempo em sua carreira.
Asfato Selvagem apresenta as relações familiares sendo construídas e destruídas por paixões incestuosas e repressão sexual.
Bem à preferência de Rodrigues, a sedução voluntária ou não polvilha o texto. Não há nada explicíto, mas há cenas de violência e a exposição de toda corrupção envolvendo os anos 40, da sociedade à política. Os homens se debatem em duelos morais em que a lubricidade briga com a moral, esta muitas vezes perdendo e o resultado é uma canalhice. Os homens de Rodrigues são sempre canalhas.
As mulhres por sua vez não são santas, nenhuma delas. Sua representação parece ser uma mistura de piedade com curiosidade em que fica clara a fascinação do autor por elas. Todas são sedentas de amor, sedutoras... não há distinção entre feias e belas, novas e velhas.
Silene, a filha de Engraçadinha que é descrita como uma ninfeta, joga na cara do leitor que o desejo e a caça sexual acontecem cedo, ainda que a sociedade tente reprimir devido ao fato de que o amadurecimento de mente e corpo não acontecem ao mesmo tempo.
Essa é uma das grandes maravilhas do texto, não há desculpas apresentadas e todas as ações têm consequências.
Quanto ao estilo, a preferência do autor pelo teatro fica óbvia - são cenas dramáticas e frases de efeito que conseguem não cair no cliché. E na ânsia para desenvolver personagens e ação, o autor despudoramente faz um salto temporal avassalador, pois os detalhes do quotidiano não importam, é uma crônica da sexualidade sem ser da vida diária.
Recomendo.