Como um prato típico poderia estar relacionado à eclosão da ditadura militar no Brasil? Tenho a impressão de que essa foi uma pergunta que muitos leitores fizeram a si mesmos quando se depararam com o título do livro do jornalista e escritor Joel Silveira, A Feijoada que Derrubou o Governo (Companhia das Letras, 2004). Há de se considerar que não há nada mais literário do que escolher o corriqueiro ou o detalhe para ancorar a narrativa de um fato histórico; e foi dessa maneira que Silveira apresentou parte da história do Brasil, pelo menos da qual ele vivenciou.
No livro, as experiências do autor como jornalista aparecem vestidas do tom da crônica, que, por sua vez, se aproxima muito do verdadeiro ato de narrar indicado pelo pensador Walter Benjamin em seu ensaio O Narrador. As histórias, uma vez lidas, portanto, ficarão guardadas na memória do leitor e o farão encarar os fatos históricos sob um íntimo, sólido e despretensioso prisma. A generalidade e o distanciamento, característicos dos livros de história, ficam de lado nesse livro.
A escrita dotada de estilo próprio de Silveira, bem como sua vasta experiência na política brasileira, viabilizaram, de certa forma, o êxito do escritor nos seus 18 livros-reportagem, dentre os quais estão O Inverno da Guerra (Companhia das Letras, 2005) e Você Nunca Será Um Deles (Rrecord, 1988). Isso sem falar em sua obra ficcional que inclui O Dia em que o Leão Morreu (Record, 1986) e Não foi o que Você Pediu? (José Olympio).
Contemporâneo de outros grandes profissionais que marcaram o jornalismo dos anos 40 como David Nasser, Samuel Wainer e Edmar Morel; Silveira começou a construir sua carreira jornalística quando saiu de Aracaju SE, sua cidade natal, e foi para o Rio de Janeiro, onde passou a conviver com intelectuais como Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos e Manuel Bandeira. Seu primeiro emprego foi no Dom Casmurro, um periódico literário. Depois passou a atuar como repórter na revista Diretrizes do Samuel Wainer, além de escrever para outros veículos como a revista Manchete e nos jornais Correio da Manhã, Diário de Notícias, O Estado de S. Paulo, Última hora e Diários Associados.
Foi a partir desse cenário que Silveira concebeu A Feijoada que Derrubou o Governo. Além de tratar do período da ditadura, do qual faz parte a tal feijoada, o autor acrescenta no livro algumas outras histórias políticas que envolvem grandes figuras públicas como Jucelino Kubitscheck, João Goulart e Jânio Quadros.
Vale ressaltar aqui o capítulo que Silveira reserva para contar sua visita a fazenda de JK em Luisiânia. Uma parte emocionante que revela a intimidade e o lado humano do visionário presidente e, além disso, a relação de amizade com o próprio jornalista. Aqui, o autor revela como que num diário íntimo seus sentimentos em decorrência da morte do ex-presidente e os deixa transparecer nestas últimas páginas do livro.
Mas, e a feijoada? Joel Silveira bem sabia da história mais expressiva ao usá-la para nomear o livro. A noite em que o jornalista participa de uma feijoada na casa de um ministro é o norte para que ele conte sua experiência da passagem do dia 31 de março para o dia 1º de abril de 1964, que oficializou a tomada do poder pelos militares.