Recupera a ação social dos índios, restituindo-lhes a condição de sujeitos ativos e centrais num processo que aparentemente os mantinha marginalizados. Mostra como os índios que haviam sido derrotados militarmente simulavam obediência, passividade e servilismo para salvar sua vida e sua cultura.
Bartolomé de Las Casas e a Simulação dos Vencidos -
Héctor Hernan Bruit
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O livro de Héctor Hernan Bruit promove um estudo sobre o pensamento do frei Bartolomé de Las Casas a respeito da América. Segundo o autor, Las Casas teria se antecipado a teorias modernas sobre a relação entre estado e sociedade civil e abordado a simulação dos vencidos (ameríndios). Resumo A partir de um esboço biográfico é atribuído à Las Casas a compreensão que hoje temos da conquista hispânica e a estruturação da sociedade hispano-indígena. A defesa dos indígenas marcou os memoriais, cartas e livros de Las Casas. A obra lascasiana (referente à Las Casas) descreve de maneira apocalíptica e quase obsessiva a destruição, genocídio e violência com os indígenas. Há a violência individual (mortes, mutilação) e institucional (trabalho nas minas, obrigações sociais, nova cultura). Para Las Casas, a sociedade futura nascia com as entranhas destruídas, para condenação da Espanha e sofrimento da América. Para contrapor isso, Las Casas imaginava a sociedade com duas ideias básicas: deveria ser colonizada com lavradores hispânicos, casados e pobres, com terras e gado; os povoados indígenas deveriam ser mantidos totalmente livres. Para Las Casas, os ameríndios eram donos da América. O papa tinha jurisdição sobre eles, mas dependia que os próprios indígenas consentissem. Ou seja, a dominação política dos ameríndios só seria possível se aceitassem voluntariamente a conversão. O domínio político da Espanha dependia da aceitação, voluntária e consciente, da fé cristã. Persuadir sem forçar. Este pensamento se inspirava em teorias da Baixa Idade Média, de que o poder do príncipe não era de origem divina, mas na comunidade, e em teorias defensoras da independência e liberdades republicanas ao norte da Itália. De acordo com Las Casas, a Espanha impôs uma obediência pela força e não no direito. Dentro desse contexto, o conselho das índias e o rei aceitaram um debate envolvendo Las Casas. Os dois principais pontos eram sobre a condição de barbárie dos indígenas e a guerra como mecanismo prévio à evangelização. Há controvérsia sobre se os argumentos de Las Casas prosperaram, mas, claramente, os fatos que ele denunciava antecederam as doutrinas que ele defendia. Por exemplo, o genocídio dos indígenas foi extremamente rápido, questão de apenas algumas décadas. Dos cerca de 500 mil ameríndios que viviam na ilha de Espanhola quando na conquista, restaram apenas 29 mil em 1514. Esse desastre acabou originando as Leis de Burgos ("encomenda"), que era uma instituição reguladora das relações de trabalho que exigia do conquistador obrigações religiosas, militares, civis e econômicas. Teoricamente a encomenda demonstrava uma preocupação do Estado em cumprir a finalidade religiosa da conquista. Mas no final das contas, como os próprios conquistadores eram a última instância em relação aos nativos, as consequências foram desastrosas para os ameríndios. Ainda, houve reação à obra de Las Casas tanto na época em que ele viveu quanto nos séculos que se sucederam. A imagem lascasiana do indígena, embora bem-intencionada, funda a ideia de um povo com uma história feita pelos outros, possivelmente contribuindo para uma visão que tira os indígenas a condição de sujeitos ativos e centrais no processo. Bruit considera que a conquista da América não ocorreu em sua totalidade devido à resistência dos indígenas, tanto a militar como as resistências sub-reptícias, como exemplo a ruptura da comunicação verbal. Poucos espanhóis conheceram razoavelmente os idiomas e tradições americanas, ao contrário dos ameríndios que em geral dominaram bem o castelhano e também o latim. Os europeus não vislumbraram a atitude simuladora dos ameríndios, que fundaram a cultura da recusa, minando e deformando a nova sociedade. O trauma da conquista, que pode ser reconstruído a partir de cronistas da época, teve "consequências psicossociais", um trauma psicológico. O folclore popular, como a "dança da conquista " (na região do Império incaico) ou a dança das penas (México e Guatemala), são expressões contemporâneas e cristalinas deste passado. Nestas festividades os fatos da conquista são revividos, contudo sem dar espaço ao choro ou ao conformismo; a História é reescrita. O rei da Espanha condena à morte o conquistador Pizarro. Cortés pede perdão logo após ser derrotado, para delírio do atual povo mexicano. Para Bruit os vencidos, em sua derrota, podem ter conseguido uma emocionante vitória. Considerações Finais A obra de Bruit é, sobretudo, uma obra de um latino-americano, que procura desconstruir a ideia de um pecado original e busca uma redenção à auto-suposta vocação para ser escravo, da maldade, feiura e negrice que explicam e marcam nossas origens... a invenção da América. Ainda, o pensamento de Las Casas, no seu tempo nem sempre motivo de aplausos, ao defender a igualdade essencial de todos os homens, surpreendem por pertencerem a um frade dominicano do tempo de Colombo. Linguagem simples e acessível, recomendado tanto para pesquisadores quanto público em geral.
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