Gostei muito, e acho que tem muita coisa interessante pra analisar. As descrições são muito vívidas e um pouco perturbadoras - às vezes, as lagunas são belas, outras, nojentas. As frequentes comparações com um útero só ajudam na ambientação desse pós-apocalipse. Ainda assim, acho que o vocabulário é um pouco estranho, mas pode só ser a época, mesmo.
Agora, tem um aspecto do livro que não só o torna datado, mas completamente passível de não ser recomendado. Ele é racista demais da conta. Os personagens negros são completamente estereotipados, o clássico - burros, brucutus, super fortes e musculosos, violentos, cruéis, e descritos de várias maneiras racistas, incluindo características símias (e claro, eles são os vilões). O narrador frequentemente usa palavras racistas em inglês (slurs), "negro" e "mulatto", cujo uso é inadmissível no mundo anglófono de hoje. Pessoalmente, sou contra a censura, já que é importante lembrar que mesmo que já fossem os anos 60, a galera continuava sendo MUITO racista. Uma pena que essa edição não tem uma introdução falando sobre o texto, porque poderia ter sido algo legal de discutir. É melhor ler já sabendo sobre o racismo, porque eu fui pega de surpresa.
Em questão da ficção científica, ela é meio pobre. A parte do apocalipse climático é ótima, não seja por isso. Mas a história se passa em 2145 e não tem nem uma mísera TV. O autor não se preocupou em imaginar como as coisas estariam quase 200 anos depois que ele escreveu isso, então a história é só os anos 60 só que submersos. Total falta de imaginação. Nem um pouco futurista, a sociedade não evoluiu nem 10 anos nesses 200 na cabeça do Ballard.
E eu gostei dos personagens. Claro, porque o racismo é pouco, o livro também é super sexista, já que a ÚNICA personagem feminina, minha anglo-xará Beatrice, é super sexualizada. Poucas falas, nenhuma agência, e ela aparece em grande parte do livro sem roupa (só de biquíni). Não dá pra esperar muito, mas ela é sequestrada pelos vilões e não é estuprada (porque o chefe é obcecado por ela e enche ela de jóias). Mas ela não é uma personagem ruim, só uma vítima do patriarcado e desse autor sem-noção. Os homens são legais também, e o Strangman é um bom vilão (doido que só).
A parte dos sonhos é fascinante. A ideia que a mente deles está regressando, relembrando a vida pré-histórica é genial. Esses "delírios" dos personagens só adicionam à ambientação. Aqui tem elementos que eu gosto em livros de modo geral - água, mundos submersos, uma conexão ancestral com a terra em nível de espécie.
Em resumo: leia se você quer uma boa história sobre um apocalipse climático, mas chegue ciente do racismo e sexismo descarados.