Ótima surpresa essa seleção feita pelo José Paulo Paes (achei superior à do Ítalo Calvino, bem mais famosa).
Nesses contos são exploradas aquelas “lacunas” no entendimento humano, fenômenos que a humanidade não sabe compreender, e por isso resvala no fantástico e no sobrenatural. O interessante é que, mesmo os contos sendo antigos (o próprio livro é do final dos anos 50), o conteúdo ainda encontra eco nas nossas atuais inquietações diante do desconhecido e dos mistérios da vida e da morte.
Temos, por exemplo, em Holloway Horn e o seu “Notícias do futuro”, um jornal com notícias de amanhã. “A coisa no Hall”, de E. F. Benson, lida com estranhos fenômenos, não se sabe se espirituais ou parapsicológicos. “Laura”, do Saki, e “A promessa”, de Lafcádio Hearn, tratam de vinganças que continuam após a morte. “Do outro lado”, de Jacques Casembroot, fala abertamente sobre a vida no além. “Como um pesadelo”, de Williams Hines, lida com aquela ideia de que o que acontece com determinada coisa acontecerá também com a pessoa. O complexo Laocoonte” trata de uma estranhíssima materialização de pensamentos ocultos.
Dois dos contos de que mais gostei lidam com a questão do tempo, sugerindo que ele não seja tão linear quando a gente acredita aqui, na matéria: “Estou à espera”, de Cristopher Isherwood, em que um sujeito parece fazer uma curta viagem de cinco anos no futuro, e “Candidata a afogamento”, de Adrian Alington, em que o personagem tem uma visão do futuro e age no presente para impedir que ela se concretize.
Há uma ótima premissa também em “História completamente absurda”, conto de Giovanni Papini, em que um escritor descobre que a história que estão lhe contando e pedindo para avaliar era a de sua própria vida. Também é curiosa a ideia de uma livraria composta só de livros que nunca foram concretizados, em conto de Nelson Bond.
Alguns contos talvez passem um pouco a linha do verossímil, como “Lógica inflexível”, de Russel Maloney, em que alguém resolve testar aquela ideia de que, depois de algum tempo, até mesmo macacos seriam capazes de escrever todos os livros da humanidade, mas é divertido, é interessante, é um ótimo exercício explorar essas áreas que fogem dos atuais paradigmas.
O melhor conto do livro é do brasileiro Aluísio Azevedo, o sensacional de “Demônios”, conto que pode ser visto como fantástico, como terror e até como ficção científica.
Há também o indefectível Hoffmann e o seu “O reflexo perdido” e o Álvares Azevedo com “Bertram”. A escolha desses dois contos permite que se observe muito bem o quanto de Hoffmann havia no Álvares de Azevedo. São contos com um ambiente diferente, carregado de certa sobrenaturalidade e normalmente conduzindo a eventos trágicos.
Achei que o conto do Poe, “Silêncio”, não foi uma boa escolha, pois havia muitos outros contos que viriam mais a calhar em uma coletânea voltada à literatura fantástica.
Faltou talvez “O horla”, do Maupassant.
E o conto termina com Drummond, com o curioso “Flor, telefone e moça”, no qual um morto passa a ligar para a casa de uma mulher depois que ela tirou uma flor de cima da sua sepultura. Improvável pode ser, mas original, criativo.
Sei que gostei muito do livro e a cada conto ficava curioso para ver qual ponto nebuloso da nossa misteriosa trajetória cósmica seria explorado.