Nesse trabalho interessantíssimo e, certamente, polêmico sob alguns ângulos, François Dosse não apenas conta a história dos acontecimentos das vidas individuais que compuseram o estruturalismo, mas ele as reúne, sob vários aspectos, para que elas componham coletivamente o mosaico desse influente movimento intelectual francês.
Em termos de método, o livro é muito interessante. O autor se utiliza da prosopografia, ou seja, uma espécie de biografia coletiva. Articulando o declínio da filosofia existencialista como ponto de partida, ele se lança em diversas direções buscando os indivíduos e momentos fundadores do estruturalismo. Esses indivíduos são, é claro, a nata da intelectualidade francesa das décadas de 1950 e 1960, a começar pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss. Os momentos, por outro lado, são de várias ordens: ascensões de carreira, avanços e recuos institucionais, publicações que marcaram época e geraram abalos no edifício intelectual francês.
Esse último ponto é, sem dúvida, muito interessante aos leitores dos volumes. Dosse não se limita a relatar os fatos de uma publicação (quando foi publicado e por quem, através de qual editora, etc.), mas leu e interpretou os textos. E creio que aqui é o ponto mais interessante: sua história do estruturalismo não é uma simples biografia de um movimento intelectual num sentido narrativo, mas, sobretudo, num sentido interpretativo. Em outras palavras, o estruturalismo de François Dosse é o <i>seu</i> estruturalismo.
É isso que permite que Dosse reúna, em sua obra, as biografias de intelectuais que veementemente rejeitaram uma filiação direta ao estruturalismo, como Michel Foucault. Fica óbvio que indivíduos como Foucault (e, sem dúvida, mais ainda Jacques Lacan) se alimentaram do bonança institucional da França dos anos 1960-1970. E, em parte, é preciso admitir que esse período de expansão se deu em grande parte em razão da valorização de intelectuais de gerações anteriores que abriram caminho e consolidaram departamentos, universidades, grupos de pesquisa, revistas, etc. Por outro lado, isto por si só não é razão suficiente para colocar os autodeclarados <i>outsiders</i> dentro desse círculo.
A narrativa de Dosse é bastante envolvente e apresenta situações muitas vezes inusitadas que humanizam significativamente estas figuras quase míticas que gerações de jovens (às vezes nem tão jovens assim) pesquisadores de ciências humanas, como eu e outros, não tiveram oportunidade de ver, ouvir, dialogar. Ainda que se discorde da unidade (ainda que ela não seja propriamente homogênea) do estruturalismo de Dosse, é uma importante obra que esclarece não apenas o contexto, mas o pensamento de muitos dos grandes intelectuais franceses que, ainda hoje, lemos e nos quais apoiamos grande parte de nossas ideias sobre o mundo contemporâneo.