Obra de cunho Naturalista, pode chocar aqueles que esperam que os clássicos sejam livres de perversões e crimes passionais. Pois é isso mesmo que ela retrata: a pedofilia, o desamparo e a desigualdade nas relações familiares.
É uma história tão nossa conhecida mesmo nos dias de hoje que é possível desvendar o enredo já no primeiro capítulo. A mãe morta, o pai ausente, e uma menina bonita criada por padrinhos sem relação consanguínea (algo que o pedófilo em questão faz questão de frisar).
Talvez descrever a sedução de Maria do Carmo como pedofilia possa parecer um pouco exagerado desde que ela só ocorre quando a personagem em questão conta dezesseis anos. Porém, a própria relação de poder de João da Mata sobre ela que já poderia implicar o estupro de vulnerável é também fundada na estranha obsessão que ele apresenta quando ela ainda é criança.
Os outros personagens - o irresponsável e sedutor Zuza, a madrinha alienada, a amiga mal-falada - apenas reforçam o abandono de Maria do Carmo, a ignorância e o descaso que perpetuam o abuso e a miséria.
É uma história pesada da literatura nacional que deveria ser mais discutida já que esse tema continua atual.