Mazagão - A Cidade Que Atravessou o Atlântico (1769-1783)

    Laurent Vidal

    Martins Fontes
    2008
    294 páginas
    9h 48m
    ISBN-13: 9788599102770
    Português Brasileiro

    Este livro conta a odisséia de Mazagão, uma cidade fundada no Marrocos, no século XVI, pelos portugueses, como parte da empreitada pela reconquista de territórios não-cristãos. Mas em 1769, sitiada por cerca de 120 mil soldados mouros, a vila inteira de Mazagão - seus 2 mil habitantes e todos os bens que podiam carregar - é transferida para Lisboa por decisão da coroa portuguesa. É também nesse período que Portugal desenvolve, do outro lado do Atlântico, seu plano de colonização da Amazônia. Eram então necessários braços para o trabalho e pessoas que lá se fixassem. A solução: transferir Mazagão para o Brasil. Mas pouco tempo depois, ainda no século XVIII, uma epidemia devasta a jovem vila; os poucos sobreviventes fogem e se estabelecem em outras localidades do Amapá. A selva acaba por engolir a Mazagão amazônica, ocultando-a durante séculos. Uma história dramática vivida em três continentes, contada todos os anos, na região, durante festejos de São Tiago. Uma fato histórico que volta à vida com a recente descoberta das ruínas de Mazagão, no meio da floresta.

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    R .10/06/2018Resenhou um livro
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    A obra amplia o conhecimento sobre Mazagão e sua história em detalhes pouco conhecidos. Vemos o contexto vivenciado na cidade em Marrocos, fatores determinantes para a mudança e os passos que se somaram até a vinda de várias famílias para o Amapá. As informações foram pesquisadas nos três continentes envolvidos, evidenciando-se aspectos históricos, políticos, sociológicos, econômicos, geográficos e culturais do século XVII. Leitura rica em percepções, descobrimentos e reflexões que podem servir de paralelo no estudo das cidades em fluxo emigratório na atualidade, uma das propostas ressaltadas. O autor procura desmistificar muita coisa que se estabeleceu e, à luz dos fatos apresentados, instiga a criticidade em história com episódios impactantes. Registrando algo mais específico, a Mazagão de Marrocos é apresentada em suas características físicas, onde se destacava a imponência das muralhas (que chegavam a 14 metros de altura); vemos a importância como entreposto para Portugal; a instabilidade política e a insatisfação que despertava entre os povos no Marrocos; além do cotidiano estabelecido. Há informações reveladoras, destacando-se o fato de, na prática, ser uma cidade prisão, para onde Portugal enviava exilados e condenados em estratégia política com desfaçatez. Ocorreram episódios de fome e epidemias por rupturas comerciais, quando Portugal fora atingido por terremoto, sofrera com pressões da Espanha e França, e redirecionara o foco político para a colônia brasileira. Uma das partes mais impactantes, está na visão sobre a política de remanejamento, em que os governantes portugueses articularam algo que os exaltava como salvadores e também vencedores da tensão estabelecida naquela região, quando o povo se sentia abandonado e sofrendo graves consequências práticas, em conflitos crescentes no interior e exterior da cidade. As estratégias políticas são também impactantes na articulação para a vinda para a Amazônia, quando os mazaganenses foram encorajados pelos governantes como soldados da fé, com a dádiva de evangelização entre os povos nativos em um novo mundo. Religiosidade em articulações que iriam ressoar também na festa que se mistura hoje com a identidade da cidade. Muita ideologia convincente... Na prática, algo que nunca tinha ouvido falar: Laurent Vidal relata arbitrariedades contras famílias na vinda para a colônia, que incluíram abusos e assassinatos... Na chegada ao Brasil o livro tece considerações da passagem em Belém, onde podemos destacar que o remanejamento para Nova Mazagão, ao contrário do que aconteceu nos deslocamentos anteriores, em bloco, dessa fez foi redirecionado em unidades familiares, em uma espera em cerca de sete anos. Ocorreram em canoas gigantescas, que comportavam em torno de 50 pessoas, em trajeto por igarapés que durava em média 10 dias. A nova localidade logo recebeu status de vila e teve caracterizações peculiares, assumindo outra identidade da Mazagão africana, destacando-se o isolamento, a identidade mestiça, insatisfações e conflitos pelas dificuldades enfrentadas, clima hostil à população desconhecedora da realidade, episódios de fome, fugas em massa de indígenas e escravos afrodescendentes, saída de muitos mazaganenses deixando para trás familiares, declínio crescente pela escassez de mantimentos e enfrentamento de endemias amazônicas. O autor referencia que no século XIX assumiu a identidade quilombola e uma nova cidade assumiu maior importância nas proximidades, Mazagão Novo em 1915, restando a antiga localidade a lembrança como Mazagão Velho. Na parte final há descrição da Festa de São Tiago, festejo popular na mistura de religiosidade e paganismo. Os principais momentos são citados e as impressões do autor mostram uma valorização ilusória, pois tanto a Mazagão africana, quanto a Mazagão amazônida tiveram histórias de derrotas e declínio, iludidas em política que inflava os ânimos e encobria a realidade através da religiosidade - aspecto ressaltado na festa - em histórias como foram as de outros tempos entre os mazaganenses. Um livro de muitas descobertas e riqueza em informações, obrigatório no estudo de Mazagão como uma das poucas literaturas nesse nível de abordagens.

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