Na Inglaterra, o ano de 1021 parece ter recebido as bênçãos de Satã. As colheitas se perderam devido às geadas, os rios ficaram congelados, as chuvas foram abundantes e as enchentes do Tâmisa trouxeram destruição e morte. Rob Cole ficou órfão de pai e mãe com dois irmãos pequenos para criar: William, de seis, e Anne Mary, de quatro. Lutando para sobreviver, torna-se aprendiz de um barbeiro-cirurgião amoral por excelência, e se faz charlatão, apregoando aos quatro cantos as qualidades suspeitas de um elixir, panacéia universal. Apaixonando-se pela medicina, embarca para a Pérsia, onde aquela ciência ensaiava seus primeiros passos. Lá encontra o lendário médico Avicenna e esposa, com quem comete adultério. Uma vida aventureira. Mas dedicada de corpo e alma a um ideal: o saber e o bem da humanidade. Noah Gordon, o autor de alguns dos mais importantes best-sellers da última década nos Estados Unidos, escolheu para herói de seu último romance - e primeiro a ser aqui lançado - um homem cuja ambição de vencer a morte e a doença o levam da brutalidade e ignorância do século XI na Europa à turbulência sensual e ao esplendor do Oriente. Unindo História e imaginação, O Físico é uma narrativa empolgante, na qual Noah Gordon conta os primeiros tempos de uma ciência essencial para o futuro do homem.
O físico - A epopéia de um médico medieval
Noah Gordon
A grande aventura da origem da medicina
Os elementos estão todos costurados com maestria: muito romance, sensualidade, aventura, fatos históricos, o cenário da Idade Média e das Cruzadas; além do fascínio ocidental pelos mistérios do oriente. Só a citação dessa lista já faria de <b>O Físico</b>, um livro imperdível para quem aprecia ao menos alguns dos ingredientes descritos acima. Mas Noah Gordon, não satisfeito em reunir tantos ícones do imaginário literário em um único livro, ainda é um bom contador de histórias. Uma verdadeira encarnação masculina de Sherazadi. As quase 600 páginas do livro avançam quase que de um só fôlego e o leitor fica querendo mais. Para quem não conhece ou nunca teve coragem de ler com medo do tamanho do romance, já que a obra foi lançada em 1996 e está na 14ª edição no Brasil, O Físico conta a história de Rob Cole, um órfão inglês que, após a morte dos pais, termina como uma mistura de filho adotivo e empregado/assistente de um barbeiro cirurgião beberrão e com ares de saltimbanco na Europa do século XI, obscura, supersticiosa e com o braço repressor da igreja baixando e mandando para o cadafalso qualquer suspeito de bruxaria. Rob, que traz uma espécie de dom místico para curar e deseja vencer a morte e a doença que dizimaram sua família; depois de adulto, ouve falar do mítico Avicena e de uma fabulosa escola de medicina na Pérsia, para onde ele viaja, assumindo a identidade falsa de um estudante judeu... Daí para frente, vocês mesmos leem, senão perde a graça. A pretensão de Gordon não é contar em termos precisos e didáticos a história da origem da medicina, mas narrar a grande aventura que era ser médico numa época em que enquanto o Oriente era vanguardista e concentrava além de grande riqueza material, uma ainda maior intelectual; o Ocidente afundava em reinados sangrentos e corruptos e nos medos impostos por um cristianismo amargo e inquisidor que impedia acima de tudo o avanço da ciência que coloca a existência de Deus em xeque. A partir da saga do jovem Rob, o autor romanceia o que deve ter sido a realidade de muitos homens - e mulheres de carne e osso naqueles tempos árduos. Havia um conflito profundo entre ciência e fé, como ainda hoje existe. E todos os lados da questão são abordados com grande propriedade e leveza pelo escritor. Usando figuras reais que se tornaram mito, como o próprio Avicena, Noah Gordon tenta desvestir-se de um possível olhar maniqueísta ocidental e europeu para traçar um panorama da riqueza cultural e social tanto do Islã, quanto do Cristianismo e do Judaísmo medieval e mostrar onde estariam as origens não só do eterno conflito entre cristãos, judeus e muçulmanos, mas das idiossincrasias daquelas que são consideradas as três maiores religiões da humanidade. Sem defender ou demonizar nenhum dos três credos e sem deixar de apontar as origens históricas para cada um dos bens e dos males que deles resultam, ele transfere para o olhar estrangeiro de Rob Cole a mistura típica de fascínio e repulsa que acomete qualquer pessoa que é tirada de uma cultura e um modo de pensar e confrontada com outra. No meio disso tudo e para não cansar o leitor, o autor tempera todas as questões filosóficas e dados históricos levantados pelo seu romance épico, com descrições generosas e perfeitas de cenários que vão do susto ao encanto, no compasso do trote de cavalos e dos exóticos camelos. As cores e os cheiros do mundo conhecido naquela época e os temores pelo desconhecido impregnam quem se aventura junto com Rob pela sua jornada. Que a Idade Média é o tempo histórico mais presente no imaginário coletivo não é novidade, basta lembrar-se da quantidade enorme de romances e filmes que abordam diversos aspectos do período, desde o amor trágico e cortês de Romeu e Julieta, até as lendas da Távola Redonda, passando por toda a mítica de fadas, magos e atos heróicos de cavaleiros de armadura. Sem abrir mão de uma pitada sutil de sobrenatural(a espantosa capacidade de Rob Cole de curar ou prever a morte), e sem deixar também de citar cenas empolgantes de batalhas dos exímios cavaleiros árabes, Noah Gordon nos oferece outra perspectiva da Idade Média, aquela que debruça-se sobre o fervilhante caldeirão cultural e filosófico de um tempo em que os homens viviam a dúvida de obedecer a um Deus invisível e cheio de regras e preceitos (seja esse Deus cristão, muçulmano ou judeu) e obedecer a própria inclinação natural à curiosidade que leva à evolução. Tanto para quem é fascinado por história, principalmente a medieval, quanto para quem é fã de carteirinha de um bom romance de aventura, O Físico é leitura mais que recomendada.
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