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    Mitologias -

    Roland Barthes

    Difel
    2003
    256 páginas
    8h 32m
    ISBN-10: 857432048X
    Português Brasileiro
    4.2
    130 avaliações
    Leram269Lendo44Querem361Relendo1Abandonos12Resenhas5
    Favoritos15Desejados361Avaliaram130

    Tendo como base uma série de textos escritos sobre assuntos do cotidiano, visando sobretudo a realizar, por um lado, uma crítica ideológica da linguagem da cultura dita de massa e, por outro, uma primeira desmontagem semiológica dessa linguagem , o autor Roland Barthes busca desmistificar os mitos em que se vêm constituindo inúmeros aspectos de uma realidade constantemente mascarada pela imprensa, pelo cinema, pela arte e pelos demais veículos de comunicação, sempre a serviço de interesses ideológicos.

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    Tauana Weinberg Jeffman05/10/2010Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Cap. 2 - O mito hoje

    O mito é uma fala. Não uma fala qualquer, são necessárias condições especiais para que a linguagem se transforme em mito. O mito é um sistema de comunicação, uma mensagem. Não sendo objeto, conceito ou idéia. O mito é um modo de significação, uma forma. Ele não se define pelo objeto de sua mensagem, mas pela maneira como o profere: o mito tem limites, formas, contudo, não substanciais. Pode-se conceber que haja mitos antiguíssimos, mas não eternos, pois é a história que transforma o real em discurso, é ela e só ela que comanda a vida e a morte da linguagem mítica. O mito é uma fala escolhida pela história. Essa fala é uma mensagem que pode ser oral, escrita ou representações. Todas as matérias-primas do mito pressupõe uma consciência significante. A linguagem, o discurso, a fala, são toda a unidade, ou toda síntese significativa, quer seja verbal, quer seja visual. O mito como sistema semiológico A semiologia é uma ciência das formas, visto que estuda as significações, independentemente de seu conteúdo. A mitologia faz parte simultaneamente da semiologia, como ciência formal, e da ideologia, como ciência histórica: ela estuda ideias-em-forma. Na semiologia temos o significante, o significado e o signo. Este é o total associativo dos dois primeiros termos. O significante é vazio, e o signo é pleno, é um sentido. Para Saussure, o significado é o conceito, o significante é a imagem acústica, e a relação entre o conceito e a imagem é o signo, entidade concreta. O sonho, para Freud, não é o seu conteúdo manifesto, nem o seu conteúdo latente, mas sim a ligação funcional de ambos os termos. Na crítica Sartriana finalmente, o significado é constituído pela crise original do sujeito, a literatura como discurso e a relação da crise com o discurso, define a obra, que é uma significação. A semiologia só pode comportar uma unidade no nível das formas, e não dos conteúdos, o seu campo é limitado, tem por objeto apenas a linguagem e só conhece uma operação: a leitura e o deciframento. No mito, pode-se encontrar o esquema tridimensional: o significante, o significado e o signo. Mas o mito é um sistema particular, visto que ele se constrói a partir de uma cadeia semiológica que já existe antes dele: é um sistema semiológico segundo. O que é signo (totalidade associativa de um conceito e de uma imagem), no primeiro sistema, transforma-se num simples significado no segundo. É necessário recordar que as matérias-primas da fala mítica (língua, fotografia, pintura, cartaz, rito, objeto...), por mais diferentes que sejam inicialmente, desde o momento que são captadas pelo mito, reduzem-se a uma pura função significante: o mito vê nelas apenas uma matéria-prima, a sua unidade provém do fato de serem todas reduzidas ao simples estatuto de linguagem. O mito considera uma totalidade de signos, um signo global, o termo final de uma primeira cadeia semiológica. Tudo se passa como se o mito deslocasse de um nível o sistema formal das primeiras significações. No mito, existem dois sistemas semiológicos, um deles deslocado em relação ao outro: um sistema lingüístico, a língua, que Barthes chama de linguagem-objeto, porque é a linguagem de que o mito se serve para construir seu próprio sistema; e o próprio mito, que Barthes chama de metalinguagem, porque ú uma segunda língua, na qual se fala da primeira. O semiólogo deve tratar do mesmo modo a escrita e a imagem porque o que ele retém delas é que ambas são signos e chegam ao limiar do mito dotadas da mesma função significante, tanto uma como a outra constituem uma linguagem-objeto. O significante pode ser encarado, no mito, sob dois pontos de vista: como termo final do sistema liguístico ou como termo inicial do sistema mítico. No plano da língua, Barthes chama o significante de sentido, no plano do mito, o chama de forma, e significado continua chamando-o de conceito. O autor chama o terceiro termo do mito (signo) de significações, esta palavra cai aqui como uma luva, segundo o autor, porque o mito tem efetivamente uma dupla função: designa e notifica, faz compreender e impõe. A forma e o conceito O significante do mito se apresenta de uma maneira ambígua: é simultaneamente sentido e forma, pleno de um lado, vazio de outro. O sentido do mito tem um valor próprio e faz parte de uma história: no sentido, já está constituída uma significação, que poderia facilmente bastar-se a si própria se o mito não a tomasse por sua conta e não a transformasse subitamente numa forma vazia, parasitária. O sentido já está completo, postula um saber, um passado, uma memória, uma ordem comparativa dos fatos. O ponto capital é que a forma não suprima o sentido, apenas o empobrece, afasta-o, conservando-o a sua disposição. Cremos que o sentido vai morrer, mas é uma morte prorrogada: o sentido perde o seu valor, mas conserva a vida, que vai alimentar a forma do mito. O sentido passa a ser para a forma como que uma reserva instantânea de história. Significado: o conceito é determinado, sendo, simultaneamente, histórico e intencional, é a força motriz que faz proferir o mito. O conceito restabelece uma cadeia de causas e efeitos, de motivações e de intenções. Ao contrário da forma, o conceito não é absolutamente abstrato, mas está repleto de uma situação. Graças ao conceito, toda uma nova história é implantada no mito. Passando do sentido à forma, a imagem perde parte do seu saber: torna-se disponível para o saber do conceito. O saber contido no conceito mítico é um saber confuso, constituído por associações frágeis, ilimitadas. Caráter aberto do conceito: não é absolutamente uma essência abstrata, purificada, mas sim uma condensação informal, instável, nebulosa, cuja unidade e a coerência provém, sobretudo, da sua função. Pode-se dizer que a característica fundamental do conceito mítico é de ser apropriado. O conceito corresponde a uma função precisa: defini-se como uma tendência. Sistema Freudiano: para Freud, o segundo termo do sistema é o sentido latente (o conteúdo) do sonho, da neurose. Freud constata que o sentido segundo do comportamento é o seu sentido próprio, ele é a própria intenção do comportamento. Um significado pode ter vários significantes: é o caso do conceito mítico. Podemos encontrar mil imagens que significam a imperialidade francesa. Essa repetição do conceito por meio de formas diferentes é preciosa para o mitólogo, pois lhe permite decifrar o mito: é a insistência num comportamento que revela a sua intenção. No mito, o conceito pode cobrir uma grande extensão de significante. Não existe rigidez alguma nos conceitos míticos: podem constituir-se, alterar-se, desfazer-se, desaparecer completamente. E é precisamente porque são históricos, que a História pode facilmente suprimi-los. A significação A significação é o próprio mito. No mito, os dois primeiros termos são perfeitamente manifestos: um não se “esconde” atrás do outro, estão ambos presentes. O mito não esconde nada: tem como função deformar, não fazer desaparecer. No caso do mito oral, essa extensão é linear, no mito visual, a extensão é multidimensional. A relação que une o conceito do mito ao sentido é essencialmente uma relação de deformação. No mito, significante tem duas faces: uma face plena, que é o sentido, e uma face vazia, que é a forma. O que o sentido deforma é a face plena, o sentido. O conceito, estritamente, deforma, mas não elimina o sentido: existe um termo que significa exatamente essa contradição, alienando-o. O mito é um sistema duplo, no qual se produz uma espécie de ubiqüidade: o ponto de partida do mito é constituído pelo ponto final de um sentido. No mito, reproduz exatamente a física do álibi. O mito é um valor, não tem a verdade como sanção: nada o impede de ser um perpétuo álibi, basta que o seu significante tenha duas faces para sempre dispor de um “outro lado”: o sentido existe sempre para apresentar a forma, a forma existe para distanciar o sentido. O mito é uma fala definida pela sua intenção, muito mais do que pela sua literalidade. O mito possui um caráter imperativo, interpelador: tendo surgido de um conceito histórico, visto diretamente da contingência, é a mim que ele se dirige. Está voltado para mim, impõe-me sua força intencional.

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    Roland Barthes

    Roland Barthes foi múltiplo. Intelectual, escritor, professor, pintor amador, não apenas transitou entre diferentes correntes do pensamento como também as forjou. Foi da crítica ideológica de inspiração marxista à semiologia dura, da teoria do texto a partir das sensações ao estudo da fotografia. Seus objetos de interesse eram inusitados: dos romances de Balzac aos tecidos de organza, do sabão em pó ao haicai. Não é à toa que sua obra influenciou — e continua a fazê-lo — a filosofia, a antropologia, os estudos literários, a linguística, a teoria da comunicação e as artes visuais e performáticas. Formado em Letras Clássicas em 1939 e Gramática e Filosofia em 1943 na Universidade de Paris, fez parte da escola estruturalista, influenciado pelo lingüista Ferdinand de Saussure. Crítico dos conceitos teóricos complexos que circularam dentro dos centros educativos franceses nos anos 50. Entre 1952 e 1959 trabalhou no Centre national de la recherche scientifique - CNRS. Barthes usou a análise semiótica em revistas e propagandas, destacando seu conteúdo político. Dividia o processo de significação em dois momentos: denotativo e conotativo. Resumida e essencialmente, o primeiro tratava da percepção simples, superficial; e o segundo continha as mitologias, como chamava os sistemas de códigos que nos são transmitidos e são adotados como padrões. Segundo ele, esses conjuntos ideológicos eram às vezes absorvidos despercebidamente, o que possibilitava e tornava viável o uso de veículos de comunicação para a persuasão. Foi diretor de estudos da "Escola de Altos Estudos e Ciências Sociais" e professor do Collège de France é um dos principais animadores do pós-estruturalismo e da semiologia linguística e fotográfica na França.

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    Normandia, França

    Roland Barthes