Um livro do cara que inspirou Machado de Assis em seu Brás Cubas, e influenciou até James Joyce não deve ser deixado de lado sem ter se dado ao menos uma olhadinha. Pois bem; abri numa página qualquer do começo do livro e me deparo com isso:
"Àqueles, todavia que preferem não remontar tão longe nessas particularidades, o melhor conselho que posso dar é pularem o restante deste capítulo, pois declaro antecipadamente tê-lo escrito para os curiosos e os indriscretos.
_________________________Feche-se a porta___________________________"
Achei curioso. Nunca tinha visto nada parecido.
O título do livro deixa pressuposto que leremos sobre a vida e opiniões dum cavalheiro chamado Tristram Shandy, mas não é bem isso que vemos. Tristram Shandy - que é o narrador - até que expressa suas opiniões, mas os protagonistas do livro acabam sendo seu tio e seu pai. Não há nada de errado com o título: ele até tentou contar sobre a própria vida, mas ele abre tantos parênteses para explicar certos fatos (como o que sua mãe disse na noite em que foi gerado, a história da parteira, ou do Yorick, as excentricidades do pai e do tio), e corta a história tantas vezes para relacioná-la com outra ou só para fazer comentários e falar com o leitor, que o livro se desvia completamente e só captamos parte de sua infância.
As divagações e explicações de Tristram ocupam mais espaço do que a história em si - e acaba frustrando (e divertindo, como no meu caso) o leitor com tanta ladainha. Só como exemplo: no capítulo 21 do volume I, o pai e o tio de Tristram aguardam com certa angústia o seu nascimento; neste ponto a narrativa é desviada para explicar certas coisas que, segundo o narrador, são imprecindíveis para o entendimento do porvir e somente no capitulo 6 do volume II é que voltamos à cena narrada ( ele interrompe seu tio no meio de uma frase que só é completada 30 páginas depois!).
Porém as divagações não são tudo. No meio da história, ainda encontramos referências filosóficas, explicações do narrador sobre fatos secundários, dedicatórias a nobres cavalheiros que estejam interessados (se pagarem 50 guinéus - "20 guinéus menos do que aquele a que poderia dar-se o luxo um homem de gênio"), contratos, sermões, textos em latim e francês, um página em branco, para desenhar a mulher mais graciosa que imaginar, prefácio do autor (no meio do livro) e até um capítulo retirado pelo narrador, por não estar no mesmo nível dos outros (por este estar com qualidade superior, o que desequilibraria o livro).
Sterne escreveu um livro irregular e fragmentado. José Paulo Paes nos adverte no prefácio que Sterne tinha um certo "horror" ao romance linear - coisa com qual Tristram brinca no volume VI ao desenhar "linhas" que demonstram o andar do livro.
Devido ao horror à sistematização do romance, muita gente acaba se impacientando - mas também é isso que faz tudo ficar divertido:
" Não é vergonha dedicar dois capítulos inteiros ao que aconteceu durante a descida de um par de degraus? Pois não ultrapassamos ainda o primeiro patamar, há ainda quinze degraus até o pé da escada; e pelo que sei, como meu pai e o tio Toby estão com vontade de conversar, talvez haja tantos capítulos quanto degraus;-- seja como for, senhor, não posso evitá-lo, assim como não posso evitar o que o destino me destina.(...)
Tivesse eu o diabo de qualquer outra regra para guiar-me neste assunto - e lá tenho alguma, - como faço todas as coisas sem regra nenhuma- eu entortaria e a faria em pedaços, atirando-a depois ao fogo. -- Estou por acaso arrebatado? Estou sim, já que o assunto o exige. -- Bela história! Cumpre ao homem seguir regras - ou às regras segui-lo?"