Ressurreição" (1872), primeiro romance de Machado de Assis, já mostra algumas das características do estilo machadiano, como a intimidade com o leitor, o pessimismo e o enredo simples, mas de carga psicológica intensa, apesar de esta característica estar mais presente na, digamos, fase romântica do autor. A narrativa conta a história de Félix, um rapaz de 36 anos, descrente do amor até conhecer Lívia, irmã de seu amigo Viana. Félix e Lívia se apaixonam, mas a relação dos dois é balizada por desconfiança e ciúme. O ceticismo de Machado de Assis dá novamente as caras, dificultando o caminho de Félix na busca pela plenitude emocional.
Ressurreição -
Machado de Assis
O bilhete que alcança o espírito
A crítica, comumente considera Félix como um rascunho de um dos personagens mais famosos da literatura brasileira: Bentinho. Se pensarmos nos versos de Shakespeare que inspiram o romance e o próprio Machado cita, nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar, nos lembraremos (guardada as devidas proporções) de Bentinho. Entretanto, ao contrário dele, Félix não vive um longo casamento semeado pela dúvida e pelos ciúmes, suas paranóias não permitem. Félix, não confia em ninguém, duvida de todos ao seu redor e, até o momento que se apaixona por Lívia, do sentimento do amor. Ela, em um diálogo quase no fim do livro, resume bem isso: As dúvidas o acompanharão onde quer que nos achemos, porque elas moram eternamente no seu coração. No apêndice do livro, Machado sintetiza perfeitamente um aspecto central do romance: Não quis fazer romance de costumes; tentei o esboço de uma situação e o contraste de dois caracteres. Esses contrastes de que fala, geram vários encontros e desencontros. No entrechoque de algumas personagens, se pavimenta o caminho de outras. Pensemos, primeiro, no antagonismo dos irmãos: Lívia e Viana. De personalidades e objetivos completamente diversos, possuem em algum nível, uma relação com Félix. E ambos, de certo modo, se auxiliam nessas relações. Já, no entrechoque das duas enamoradas por Félix, Raquel e Lívia, encontraremos as respostas para o coração e as pedras sendo cuidadosamente postas para chegarmos ao final da narrativa. Na colisão de Meneses e Félix, se estabelece uma amizade e uma mudança, fazendo com que Félix se arrependa e mude de opinião. Félix, que não crê na sinceridade dos outros (palavras dele), quer acreditar na sua própria. Essas oposições que menciono são curiosas. Félix e Meneses, Lívia e Raquel, são oponentes, mas se comprazem, se apoiam. Mesmo que possuam objetivos claros e individuais, se acolhem. Enquanto Lívia é uma mulher madura, com um filho, Raquel é uma moça pueril e ingênua. E estas características, geram anseios uma na outra. Sendo assim, não são apenas duas personagens que são contrastadas, mas várias. Existe uma semente que é lançada nesses embates em dois momentos da narrativa, e essas sementes são plantadas através de um bilhete. Em ambos, não apenas germinam, como geram uma multiplicidade do derramamento romântico e assaz doloroso da trama. Em um deles, a abertura da alma pelas linhas, um sentimento sincero e puro. Já no outro, um perfídia, uma jogada maléfica. Todavia, o xeque-mate sofrido por Félix, talvez, só venha a reavivar as profundezas de sua total falta de confiança no outro. Se, procura se isolar para fugir dos outros e se encontrar consigo, é por ser a única saída para um cético inveterado e infeliz, que escolhendo duvidar, deixou de abraçar aquilo que poderia ter lhe confortado.
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