O último livro da “trilogia VALIS” não era originalmente o planejado. Infelizmente, Philip K. Dick faleceu de um derrame antes de dar continuidade ao seu rascunho do que planejava ser o último volume do trio, <i>The Owl in Daylight</i>. Entretanto, seu último livro escrito - <b>The Transmigration of Timothy Archer</b> – possuía uma certa ligação simbólica e temática com os dois anteriores, a despeito de não ser exatamente conectado. Enquanto <i>VALIS</i> e <i>The Divine Invasion</i> não possuíam personagens em comum, o tema e elementos divididos tinhham uma conexão muito mais forte, o que acaba prejudicando este último caso ele venha a ser visto como parte de uma série. Mas <b>Transmigration</b> acaba sendo um livro que se segura muito bem sozinho, e é de uma lucidez enorme se comparado aos seus antecessores.
Este livro não é ficção científica, tampouco ficção especulativa; não há quaisquer elementos que não possam ser considerados parte da nossa realidade sensível. Uma América distópica, tão popular na obra completa de Dick, aqui é apenas os Estados Unidos no ano da morte de John Lennon. O livro é em sua maior parte composto de reflexões e conversas entre a protagonista Angel Archer e seus parentes e colegas próximos; seu marido Jeff, seu sogro o bispo Timothy Archer e a amante deste, Kirsten.
Timothy, baseado no bispo episcopal da Califórnia Jim Pike (que PKD conheceu pessoalmente durante a sua vida), é um homem ilustrado e progressista que começa a ter uma crise de fé após a descoberta (fictícia) de documentos pré-cristãos que possuem a Logia de Cristo, seus ensinamentos, dois séculos antes da época. Daí que Cristo não seria o messias, mas apenas um professor de ensinamentos anteriores a ele. Daí, crise de fé.
E daí inúmeras referências à literatura, filosofia, teologia, música clássica, academicismo, e mais. Angel Archer e seu marido são como “estudantes profissionais”, de mente universitária e neste meio habitam, permanecendo neste meio científico e abstrato. É interessante observar suas interações com o filho de Kirsten, Bill, que devido a sua esquizofrenia é incapaz da faculdade de abstração.
<i>The trouble with being educated is that it takes a long time; it uses up the better part of your life and when you are finished what you know is that you would have benefited more by going into banking.
[...]
There I go: Berkeley intellectual, viewing everything in terms of culture, of opera, of novel, oratorio and poem. Not to mention play.</i>
A voz da narradora é percpetivelmente crítica e irônica. Dick parece ter escolhido construir Angel Archer para provar a si mesmo e aos outros que conseguia construir uma narradora mulher convincente (uma coisa que os críticos sempre teriam atacado em sua obra). Angel é crível e humana, com suas dúvidas, arrependimentos, inteligência e proposições. Não é muito diferente das demais vozes narrativas usadas por Dick, mas talvez esta seja parte da ideia. Fez dela um personagem como os seus.
<i>In California you buy enlightenment the way you buy peas at the supermarket, by size and by weight. I’d like four pounds of enlightenment, I said to myself. No, better make that ten pounds. I’m really running short.</i>
O livro é denso, mas a voz é agradável de se ler. Como <i>VALIS</i>, parte da carga filosófica de Dick deixa a leitura mais devagar, assim como a falta de acontecimentos e suspense. Sabemos o desfecho do começo, e não há o gancho que torne a leitura algo compulsório; <b>Transmigration</b> não é um “page-turner”. Não é mesmo ficção especulativa – todo o elemento metafísico-sobrenatural depende da interpretação do leitor sobre os acontecimentos e personagens. Haverá uma experiência religiosa, como alguns aceditam, ou vigora o ceticismo e não há nada além de wishful thinking e alucinações? Mesmo os elementos mais fantasiosos (videntes, transmigração, ascensão de consciência) permeiam esta borda entre o natural e o sobrenatural, algo como o “fantástico” de Todorov. Como apropriado para assuntos religiosos e esotéricos, não podemos afirmar com certeza.
A despeito de tudo isso, continua a ser uma leitura instigante e lúcida. Talvez seja o mais reconhecidamente “literário” da trilogia VALIS e, por ser o último escrito, publicado postumamente, deixou a alguns críticos e amigos a impressão de alívio: “ufa; Dick não morreu maluco”. Mas fica a jamais solucionável dúvida do que seria, afinal, o desfecho planejado para <i>The Owl in Daylight</i>, no que a “trilogia” (por falta de um termo melhor) resultaria. E, até mesmo, se Dick pararia no terceiro livro.
A leitura, não só deste mas dos três livros, dá um bom mas contraditório insight de quem e como teria sido Philip K. Dick. Com a sua prematura morte, ficamos com os documentos, as autobiografias, as entrevistas e, claro, seus livros. Mas sua mente é um mistério fascinante, seu conhecimento (assim como o do próprio Timothy Archer) parece ilimitado e anedótico, e sua pessoa, uma figura única.