Publicado em 1929, pouco antes de O som e a fúria, o romance Sartoris é o primeiro situado no condado fictício de Yoknapatawpha, no Mississippi. Nele, William Faulkner (1897-1962), Prémio Nobel de Literatura, começa a estabelecer o estilo que marcaria todos de seus livros posteriores e pelo qual seria consagrado. O volume narra a trajectória de uma família decadente, de passado escravocrata, que vive à sombra do Coronel John Sartoris, morto na Guerra de Secessão. Tia Jenny, a irmã mais nova do coronel, verdadeira guardiã do passado e também da narrativa, é a mulher que alinhava, com sua memória reiterada e reinventada, as tragédias das gerações (passadas e futuras) dos homens da família - Bayard Velho, filho do coronel, e os dois netos gémeos, também chamados John e Bayard. Tia Jenny sempre amaldiçoa a família, mas conta sua história tantas vezes a ponto de transformá-la em mito. No livro, os grandes acontecimentos nas vidas dos protagonistas solitários, problemáticos e heróicos são apenas sugeridos, e o que se descortina são suas consequências.
Sartoris -
William Faulkner
Nada pode parar o tempo: porque se o amanhã tornou-se agora, o ontem virou futuro.
“Sartoris” começou a tomar forma entre o outono e o inverno de 1926, e foi o primeiro romance do escritor (gênio e mestre) americano William Faulkner sobre o Condado de Yoknapatawpha. A ideia de escrever um romance sobre sua terra natal, o Mississippi, veio de um conselho oferecido pelo amigo, escritor e contista Sherwood Anderson que Faulkner seguiu e foi retirando da vida real esses homens e mulheres que tomam forma e vão nos desvendando suas histórias. Concluído primeiramente com o título “Flags in the Dust” em 1927, sua versão como “Sartoris” só foi publicada em 1929, após uma remoção de cerca de 40.000 palavras que um relutante Faulkner teve que fazer a pedido do seu editor. Em 1973, o manuscrito original de “Flags in the Dust” foi publicado, e “Sartoris” foi retirado de circulação. No coração de “Sartoris” encontramos uma família aristocrática do sul dos Estados Unidos lutando para se adaptar a um novo mundo, onde o Velho Sul se confronta com o Novo Sul. O coronel John Sartoris, o patriarca da família, pode ser visto com a epítome do cavalheirismo sulista e seu heroísmo, enquanto seu descendente, o Novo Bayard, com seu jeito rebelde e irresponsável nos apresenta uma tentativa desesperada de viver as ideias heróicas dos seus antepassados sem grande sucesso. Esse personagem, o Novo Bayard, simboliza essa ilusão mais ampla sentida pela elite do sul após a Guerra de Secessão e a Primeira Guerra Mundial, retornando da guerra não cheio de glórias, mas de um luto que representa o Sul, que não apenas perdeu a guerra, mas todo um modo de vida. As mulheres criadas por Faulkner lançam luz sobre as mudanças sociais do Sul. Narcissa Benbow é a ponte entre o Velho e o Novo Sul, enquanto a matriarca da família, Miss Jenny, é o reflexo da aristocracia antiga do Sul em erosão. Ao contar a história da família Sartoris, Faulkner nos lança nessa tensão entre tradição e modernidade, honra e futilidades, memórias e realidades, e nos mostra seu domínio da linguagem e sua compreensão da condição humana, oferecendo um rico retrato da luta duradoura do Sul para definir sua identidade no mundo moderno. Apesar de não ser um dos romances mais recomendados pelos estudiosos de Faulkner para aqueles que estão iniciando a leitura de suas obras, confesso que fazer toda essa trajetória vivida pela família Sartoris até chegar a um final emocionante (confesso que fiquei tão tocada, que acabar o livro me deixou à beira de uma ressaca literária!), me fez ir tão a fundo na essência da escrita do Faulkner, compreendendo a importância de sua escrita pra retratar toda uma sociedade, que só me fez me apaixonar ainda mais mestre da escrita que irá perdurar por muitas e muitas gerações (assim espero!). Quero aproveitar e agradecer ao meu parceiro de leitura Fábio Nunes por ter sido tão generoso em embarcar nessa aventura comigo. E que prazeroso ouvir o podcast de um homem que sabe como colocar tão bem suas ideias e impressões, mesmo quando elas são tão contrárias as minhas, e me manter tão entretida.
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