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    Para sempre -

    Vergílio Ferreira

    Bertrand Brasil
    2004
    308 páginas
    10h 16m
    ISBN-13: 9789722502689
    Português
    3.8
    11 avaliações
    Leram26Lendo4Querem24Relendo0Abandonos0Resenhas1
    Favoritos3Desejados24Avaliaram11

    Paulo é um homem só. Na fase final da sua vida recorda Sandra, a mulher que amou. Sandra morrera de cancro. Recorda Xana, a filha que foi morrendo no abismo da droga. A mãe que morrera na sua infância; as tias o padre que o atormentaram com uma religião beata que nunca respondeu aos seus pedidos de misericórdia. Memórias que flutuam no rio estéril da memória… A melancolia de um tempo que chega ao fim, um tempo que pareceu eterno nas promessas de que é feita a vida, mas que desemboca inexoravelmente na solidão, no pessimismo, na visão negra da vida. Neste livro, Paulo aguarda a morte numa imensa introspecção onde os tempos múltiplos da vida são revistos com mágoa, com o sofrimento que só a linguagem poética de Vergílio Ferreira consegue exprimir. A morte com que se inicia o livro é a mesma, negra e impiedosa com que ele termina; a morte que está em todos os cantos da vida… a morte, esse fantasma permanente… Para Sempre é um livro de mágoas; um livro pessimista, negro, macabro; um livro sobre a vida, sobre a necessidade de a pensar mesmo que no fim dos tempos, no momento em que nada mais o pensamento poderá mudar. Mas é também um livro sobre a morte como redenção; como o remédio único e fatal para o sofrimento; para a culpa e a podridão; para a vida. A morte como o fim desse sofrimento prolongado a que Paulo chama vida. É um livro difícil de ler; não que a linguagem nos atrapalhe; não que o enredo seja emaranhado ou confuso. Não… é difícil de ler porque dói. Faz doer. O sofrimento que sai da caneta de Vergílio atravessa as páginas e vem de encontro ao leitor, apanhando-o desprevenido. E vai directamente à alma de quem lê, sem piedade. Nas letras, palavras e frases vê-se a dor; sentem-se as lágrimas; encaixa-se os socos da revolta. Vergílio Ferreira é talvez o escritor contemporâneo que melhor utilizava a língua portuguesa de forma a transmitir todo o sentimento ao leitor. Não vemos Paulo como um mártir ou um desafortunado. Vemos Paulo e verificamos que podíamos ser nós. Vemos Paulo e não temos pena; sofremos com ele; temos pena de nós. Não lamentamos a vida de Paulo; lamentamos a vida. Um livro duro de ler, mas sem dúvida um grande livro, de um dos melhores escritores do século XX em Portugal.

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    Filipe Figueiredo picture
    Filipe Figueiredo01/07/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Eu tinha muito preconceito com o Vergílio Ferreira, devido a devoção que ele mantinha por escritores de segundo escalão(Minha opinião) como Sartre e Malraux. Tenho pra mim que para traçar se você irá gostar de um escritor ou não, basta analisar suas influências. Nem sempre isso sucede numa boa estratégia, como foi o caso do Ferreira para mim. Não tem nada dessas chatices de pequeno burguês niilistas do Sartre na obra dele, e a escrita está longe de ter a insipidez do Malraux. Pelo contrário, é de uma sensibilidade rica e inquietante, como é profunda em sua simplicidade, atinge firme como uma brisa estremecedora cada frase. Me recorda mais O Livro do Desassossego, aliás, duas das minhas leituras favoritas do ano: Essa obra do Pessoa e "Para Sempre" do Ferreira. Para Sempre é uma narrativa que emprega uma técnica bastante evocadora, semelhante às madelaines do Proust, cada imagem poética desnuda experiências e memórias do narrador diferentes, do violino com as cordas esgarçadas, o corrimão empoeirado da escada, a cama da filha. É uma sinfonia de sensações arrepiantes. Pretendo ler mais deste escritor, tendo superado o preconceito e me maravilhado com esta obra.

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    Vergílio António Ferreira profile picture

    Vergílio António Ferreira

    Embora formado como professor (veja-se a referência aos professores de <i>Manhã Submersa</i> e <i>Aparição</i>), foi como escritor que mais se distinguiu. O seu nome continua actualmente associado à literatura através da atribuição do Prémio Vergílio Ferreira. Em 1992, foi galardoado com o Prêmio Camões. A sua vasta obra, geralmente dividida em ficção (romance, conto), ensaio e diário, costuma ser agrupada em dois períodos literários: o Neorrealismo e o Existencialismo. Considera-se que <i>Mudança</i> é a obra que marca a transição entre os dois períodos.

    28 Livros
    20 Seguidores

    Vergílio António Ferreira