As Palavras e as Coisas - Uma Arqueologia das Ciências Humanas

    Michel Foucault

    Martins Fontes
    1987
    407 páginas
    13h 34m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    No livro As palavras e as coisas, de 1966, sucesso de vendas que tornou Foucault conhecido no mundo todo e alvo de ferrenhas críticas, o posicionamento arqueológico é modificado sensivelmente e seus fundamentos questionados. O estatuto dado à descontinuidade se transforma e a ruptura é instaurada: "o descontínuo – o fato de que em anos, por vezes, uma cultura deixa de pensar como fizera até então e se põe a pensar outra coisa e de outro modo – dá acesso, sem dúvida, a uma erosão que vem de fora, a esse espaço que, para o pensamento, está do outro lado, mas onde, contudo, ele não cessou de pensar desde a origem"; o pensamento e o até então impensado se encontram no espaço em comum da descontinuidade, no limiar da sua própria temporalidade. Esta descontinuidade entre a epistèmê clássica, da representação, e a moderna, a nossa, da história, é uma transformação ontológica, pois "a ordem, sobre cujo fundamento pensamos, não tem o mesmo modo de ser que a dos clássicos". O que esta arqueologia evidencia é, à semelhança da arqueologia da alienação mas de modo sensivelmente diferente, a possibilidade de uma história. Na História da loucura, havia uma experiência muda e primitiva, experiência fundamental da loucura que impunha o silêncio no qual os ruídos da história se faziam ouvir; em As palavras e as coisas, há simplesmente a ruptura, o limiar de uma positividade que faz possível um pensamento.

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    Jess Carmo27/08/2021Resenhou um livro
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    Surgimento do homem moderno

    Em seu livro "As palavras e as coisas", Foucault conjectura o desaparecimento do homem. Segundo ele, se as disposições que permitiram a construção do conceito homem viessem a desaparecer, o próprio conceito, a saber, o homem, também se desvaneceria, assim como um desenho na areia da praia apagado por uma onda. Nesse sentido, surgiria um novo problema e um novo objeto de estudo. Dizer que o homem é uma produção, é considerar como a cultura e a política está imbricada com a própria produção científica. A obra colocar em destaque como essa noção de individualidade surge através de práticas sociais e, sobretudo, dos saberes das ciências empíricas - Linguística, Biologia e Economia. Para Foucault, Kant é o filósofo que assume o papel de referência para o processo de transição do pensamento clássico para o pensamento moderno, não Descartes. Enquanto o segundo autor defendia a importância da matemática, do método para a ciência (a forma de se alcançar a verdade) e conceber um indivíduo/si a-histórico e universal, Kant levanta uma problemática distinta, a saber, o que é o presente ao qual pertenço? É essa reflexão que problematiza o homem que fala, o que é o homem moderno e o que é a modernidade. Enquanto para Descartes o homem é universal e, portanto, a-histórico, para Kant o homem se apresenta em sua finitude, ou seja, histórico. Isso não é possível com Descartes, porque a matemática não implica um indivíduo ou um Eu que se situa em determinado momento histórico, mas uma ordem de conhecimento que tem como pressuposto fundamental um Eu anterior a ela e a-histórico. Para Descartes, a aquisição de um conhecimento verdadeiro não poderia prescindir da razão. Além disso, o autor considerava que os sentidos humanos poderiam nos enganar e, por isso, não seria prudente construir um conhecimento apenas pela observação. A máthesis universal de Descartes é condição de possibilidade para conhecimento clássico, não da Modernidade. O conhecimento clássico conhece o mundo através da razão, não do empírico. A racionalidade Moderna rompe com a universalidade da máthesis e com razão clássica. Enquanto a filosofia de Descartes prescindia - em sua busca de construir uma ciência geral que explicasse tudo a partir da ordem e da matemática - de uma reflexão específica, Kant problematizará o presente, o campo transcendental, ou seja, as condições de possibilidade para a construção de formas que nos permite conhecer/pensar determinados objetos. Em suma, a ordem pura da razão formal não será mais suficiente para explicar essa região que se funda a empiricidade, mas a empiricidade não poderá suspender por total o campo formal. Sob um olhar arqueológico, é impossível o surgimento de um saber sobre o homem ou aparecimento das ciências humanas antes da Modernidade. Isso ocorre porque antes disso o homem não existia ou ao menos a representação que temos acerca do que é o homem moderno - finito, já que está limitado ao corpo, trabalho e linguagem; representável em sua existência corporal, falante e laborioso - não existia. Dessa forma, o homem só existe na Modernidade como um objeto a ser estudado pelas ciências humanas, na medida em que vive, fala e produz. É necessário fazer um recorte do a priori histórico que tornou possível o aparecimento das ciências humanas e do homem moderno. As ciências empíricas (a economia política, a linguística e a biologia) anunciam a finitude do homem. Quando o homem passa a ser objeto de análise das ciências empíricas, em sua positividade do saber, nos deparamos com nossa finitude, isto é, quando conhecemos a anatomia do corpo, os mecanismos dos custos de produção ou o sistema de conjugação indoeuropéia (Sistema de linguagem), produzimos o homem finito. O que esses campos de saberes mostram é que o homem, esse objeto produzido, é mais determinado do que livre. A finitude é a condição biológica, econômica e de linguagem do homem. A finitude é produzida pelas ciências empíricas e condição do homem. Ora, ao falar da escassez alimentar, a economia fala também da finitude. O trabalho, nesse sentido, é uma forma de escapar da morte iminente. Quando a medicina antomopatológica insere a lógica da doença no corpo do homem, toda intervenção médica será para evitar a finitude do corpo. Quando Freud teoriza acerca da pulsão de vida e pulsão de morte também está teorizando sobre a finitude humana. Enfim, é a finitude que dá condição de possibilidade para o surgimento das ciências humanas. Em suma, o homem empírico é uma construção conceitual totalmente diversa do homem racional de Descartes. Conforme discutido anteriormente, antes da Modernidade a ideia de um campo de conhecimento como os das ciências humanas era incompreensível, já que a representação do que é o homem também não era possível. Mas por quê? Será necessário o choque com a finitude do homem, através da positividade desses novos saberes das ciências empíricas, para que seja possível, dessa forma, constituir uma concepção de homem. Esse é o a priori histórico para o surgimento das ciências humanas e do homem moderno. Não significa dizer que o ser humano só existe a partir da modernidade, mas que o homem representável por seu labor (economia), sua existência corpórea (biologia) e pela fala (linguística) só é possível a partir deste momento. É nesse espaço de representação do homem que as ciências humanas se debruçarão. Nesse momento, o homem irá haver-se com o seu modo de ser (como trabalha, seu sistema econômico e sua fala).

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