Full House - A Difusão da Excelência de Platão a Darwin

    Stephen Jay Gould

    Gradiva
    2000
    283 páginas
    9h 26m
    ISBN-10: 972662746X
    Português Brasileiro

    Ao contrário da genialidade dos seus livros, que constituem coletâneas de textos sobre diferentes temas originalmente editados em diversas publicações, Full House é, depois de A Vida é Bela ( Gradiva, 1995), a primeira obra de Stephen Jay Gould inédita e sobre um único assunto. Desencadeando o que vai certamente tornar-se um grande debate científico, Gould contesta as idéias assentes sobre a natureza do progresso, da excelência e da própria natureza e constrói um quadro unificado da história e da vida que vai contra aquilo que, em muitos casos, intuitivamente julgamos ser verdade. Recorre, como é seu hábito, a exemplos interessantíssimos, a prodígios e a enigmas, paradigma de progresso em que a diversidade, e não a complexidade, será a verdadeira manifestação da excelência. Tal como um full house num jogo de pôquer expressa a excelência de todas as partes juntas, fortuitas na origem mas, moldadas pela seleção, este Full House sustenta que a variação é a realidade suprema da excelência. Gould celebra, no seu veemente humanismo, a verdadeira excelência na Terra, excelência que para ele se manifesta e demonstra na plenitude e na constância da espontaneidade e da diversidade.

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    João Paulo Hoppe12/03/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Mais um livro de Stephen Jay Gould lido, o décimo primeiro na conta! Gould foi uma dessas pessoas cujos interesses não cabiam num simples rótulo. Além da paleontologia e geologia que praticava, era também interessado em filosofia, música, teatro, poesia e literatura, arquitetura, história, e especialmente baseball. A ponto de ter escrito vários ensaios e publicações sobre seu esporte favorito. E, apesar dessa aparente discrepância entre seus temas de interesse, Gould foi uma dessas pessoas que conseguia mesclar conceitos e temas entre elas, Foi observando a decoração nos arcos que naturalmente surgem quando uma estrutura é necessária para sustentar um domo que lhe veio a ideia dos "spandrels", por exemplo. Sua famosa crítica ao programa adaptacionista faz alusão ao famoso personagem de Voltaire, Panglossus. Aqui, Gould traz à tona o conceito de variância para explicar dois fenômenos aparentemente desconexos: o desaparecimento da taxa de acertos 0.400 de rebatida no baseball, e a inexistência de uma "caminhada ao progresso" no processo evolutivo. Ambas tem em comum duas características. Primeiramente, ambas são conclusões equivocadas. O desaparecimento do .400 no baseball não é um indício da perda de qualidade no esporte, e a evolução não caminha em direção ao progresso. Em segundo lugar, ambas são explicadas quando analisadas do ponto de vista da variância. Em suma, o argumento é construído em torno de limitações inerentes ao sistema. Imagine uma curva de sino de uma distribuição normal. Ela é naturalmente maior ao redor da média, e as caudas da distribuição afinam quando se afastam dela. Existe um limite para o quanto essas caudas podem expandir? Sim. Essas paredes podem ser na esquerda, onde 0 é o limite, ou na direita, onde há um máximo possível que um sistema pode gerar. Nos exemplos citados, o .400 é um limite à direita. O baseball é jogado com virtualmente as mesmas regras e equipamentos a décadas, e seus jogadores estão praticamente próximos ao ápice do desempenho. Essa constância de excelência faz com que a variância em torno da média diminua, e scores como o .400 desapareçam. Não foi o baseball que piorou, foi o baseball que melhorou como um todo. Para a evolução, o limite é à esquerda. Bactérias são a forma de vida mais próximas da baixa complexidade que temos (vírus não necessariamente são "vivos", mas esse é outro livro). Desde a origem da vida até o presente, as formas de vida dominante são as bactérias, superando em ordens de grandeza qualquer quantificação da biosfera: abundância, riqueza de espécies, biomassa, etc. Qualquer movimentação para a direita, i.e., maior complexidade, advém simplesmente de uma movimentação aleatória, já que o sistema simplesmente não permite menor complexidade. Não há, em praticamente nenhum grupo existente (ou que existiu) um registro de ganho de complexidade, e nos poucos casos onde uma história assim pode ser contada (como na famosa gravura da evolução dos cavalos), a história só é possível porque eliminamos os demais ramos e focamos em um um dos vários caminhos trilhados. Todo esse argumento estatístico, que pode ficar facilmente chato e indigerível nas mãos de um escritor menos habilidoso, simplesmente fluem naturalmente com a beleza da prosa de Gould. Ah, e se você não conhece baseball e seus termos, não importa. Gould foi um dos maiores divulgadores científicos, e sua excelência não era restrita apenas à biologia e evolução. Eu recomendo a leitura desse livro antes do "Andar do Bêbado", de Leonard Mlodinow, para ver uma expansão mais técnica do tema da aleatoriedade e a ilusão do progresso.

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