Dividido em três partes, as duas primeiras contendo treze capítulos e a última quinze, o romance mescla elementos líricos, costumbristas, psicológicos e sociológicos. Constitui uma das obras mais importantes da literatura latino-americana. A presença de símbolos em sua narrativa telúrica, numa recriação em profundidade: o personagem Santos Luzardo, volta ao lhano para vencer superstições e crendices e o espírito do mal, representado pela “devoradora de homens”, Dona Bárbara. O romance Dona Bárbara apresenta como cenário as savanas de Apure, localizadas na região de Arauca, Venezuela, cuja produção econômica se baseia na pecuária. Essa narrativa retrata a natureza fundamentada nos ideais positivistas e de pressupostos deterministas. Desse modo, o progresso e civilização são contemplados como instrumentos de redenção para o ambiente e para os homens. Em Dona Bárbara, tanto a natureza quanto os homens são representados como bárbaros, sendo que a natureza abrange uma dinâmica significativa dentro do fio condutor da obra, pois o espaço narrativo é um ambiente que determina e, ao mesmo tempo, conduz as ações das personagens. Dona Bárbara, uma descendente de índios, é personagem – título do livro. Ela é descrita como uma mulher cruel, não quis filhos para não dar prova do domínio do homem sobre a mulher. Seu principal opositor é Santos Luzardo, retratado no romance como um civilizador. A escritora Bella Jozef observa que Santos Luzardo “personifica a cultura e pretende exercer sua ação educadora nos llanos e terras distantes da civilização, rodeado de forças negativas: superstição, lucro, ignorância, que deve vencer sob pena de ser vencido”. No livro O Jogo Mágico, dando prosseguimentos as suas pesquisas sobre as letras hispano-americanas, Bella Jozef, analisa o romance brasileiro e o ibero-americano na atualidade e compara Gallegos (Dona Bárbara) com Guimarães Rosa (Grande Sertão:Veredas), ao afirmar que em ambos “o homem é ser em luta, o tema e os personagens se alegorizam na aventura do homem que tende a dominar as forças primitivas da natureza para alcançar sua harmonia interior. Apresentam assim, uma visão poética do mundo e do homem americano”.
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Rómulo Gallegos Freire
De raízes familiares humildes, Rómulo era filho de Rómulo Gallegos Osío e de Rita Freire Guruceaga. Estudou Direito na Universidade Central de Venezuela, mas não concluiu o curso. Em 1909 fundou a revista La Alborada, onde se publicavam ensaios de cariz literário e político. Em 1912 casou com Teotiste Arocha Egui. Foi professor entre os anos de 1912 e 1930, tendo sido director de vários estabelecimentos de ensino. Em 1913 publicou uma colectânea de contos, Los aventureros. No ano de 1920 foi publicada a sua primeira novela, El último Solar , reeditada em 1930 com o título de Reinaldo Solar. Em 1929 escreve uma das suas mais destacadas obras, Doña Bárbara, na qual criticava o ditador Juan Vicente Gómez. Em virtude do conteúdo do livro decide exilar-se em Espanha, onde viveu entre 1931 e 1935. Datam deste período duas importantes novelas: Cantaclaro (1934) y Canaima (1935). Com a morte de Vincente Gómez em 1936 regressou à Venezuela. É nomeado Ministro da Educação no governo de Eleazar López Contreras. Tenta realizar reformas no sistema educativo, mas fracassa e demite-se do cargo de ministro onde esteve apenas seis meses. Rómulo Gallegos ao lado de Harry S. Truman, em cerimônia no 4 de julho de 1948. Em Julho de 1941 participa na fundação do partido Acción Democrática (Acção Democrática), um partido da área da esquerda, do qual é presidente até 1948. Em 1941 apresenta-se como candidato à presidência da República, mas perde para Isaías Medina Angarita. Em 1945 participa no golpe militar que instala Rómulo Betancourt como presidente provisório do país. É novamente candidato à Presidência da República em 1947, tendo ganho a eleição do dia 14 de dezembro. Toma posse a 15 de fevereiro de 1948, mas é destituído a 24 de novembro do mesmo ano num golpe de estado encabeçado por Carlos Delgado Chalbaud, que preparou a ditadura de Marcos Pérez Jiménez. Exila-se em Cuba e depois no México, onde viveu até 1958, ano em que regressou ao seu país natal. Em 1965 foi instituído em sua memória o Prémio Internacional de Novela Rómulo Gallegos, com o objectivo de estimular a criação literária em língua castelhana. Em 1972 foi criado o Centro de Estudos Latinoamericanos Rómulo Gallegos (CELARG) sediado em Caracas. O seu nome foi dado em 1977 a uma universidade situada em San Juan de Los Morros, capital do estado de Guárico, na Venezuela.


