Pantaleão Pantoja, um oficial do exército com uma folha de serviços irrepreensível, enfrenta a missão mais arriscada da sua vida: organizar, dentro do mais absoluto sigilo militar, um serviço de prostitutas para aplacar as necessidades das Forças Armadas do Peru isoladas na selva amazónica. Rigoroso cumpridor do dever, Pantoja muda-se para Iquitos para levar a cabo esta missão, mantendo-se afastado dos demais militares, vestindo à civil e, sobretudo, sem nada revelar à mãe e à mulher. No entanto, em pouco tempo, o que era uma missão discreta transforma-se no maior empreendimento de prostitutas do país, virando do avesso a vida de Iquitos e do próprio Pantaleão, que, como se não bastassem os problemas familiares, se verá envolvido com uma bela e insinuante «visitadora», acabando por pôr em perigo a sua tarefa.
Pantaleão e as Visitadoras -
Mario Vargas Llosa
As prostitutas, os militares e o ficcionista
Publicado em 1973, Pantaleão e as visitadoras é, essencialmente, um romance sátira. Quarto romance escrito pelo último ganhador sul-americano do Nobel de Literatura, este é um livro sobre variados assuntos e suas múltiplas formas de contá-los. Vargas Llosa, como todos deveriam saber, dispensa apresentações. Dono de obras singulares e incontornáveis dentro do imaginário latino-americano como Conversa no Catedral (1969) e A festa do Bode (2000), este escritor peruano nunca deixa de surpreender. Ao acompanhar a história do disciplinado e burocrático Pantaleão Pantoja, temos acesso a uma espécie de espelho social de um microcosmo amazônico diante de nós. Mas, para que esse espelho não se quebre, Vargas Llosa faz exigências de seus leitores, o que nem sempre pode dar bons resultados. Toda a leitura, como sabemos, exige um pacto entre quem escreve e quem vai ler. E esse é um ponto demasiado importante para que Pantaleão e as visitadoras funcione. Vargas Llosa nunca foi e jamais será um escritor que subestima seus leitores. É por isso que, para contar suas histórias, ele renega, muitas vezes, a simplicidade - mas jamais abre mão da clareza, característica inegociável para o autor. Este romance, por exemplo, é contado explorando as mais variadas formas de linguagem: cartas, resoluções, informes, memorandos, um roteiro de rádio e recortes de jornal. E a opção por essa escolha variada do ato de contar enriquece o pacto firmado entre o autor e seus leitores. Afinal, por que leríamos livros se não pudéssemos explorar a imaginação em níveis variados? E é assim, dessa maneira, que as peripécias de nosso caricato militar, o capitão Pantaleão Pantoja, são contadas. Panta, como é chamado pelas visitadoras - digo, prostitutas - vive com a mãe e a esposa antes de se mudar para Iquitos, cidade onde sua vida jamais será a mesma. É neste local que vai exercer a função sigilosa, designada e aprovada por seus superiores, de conter o apetite sexual incontrolável dos milicos isolados na selva amazônica, que, nas páginas iniciais, estão sendo acusados de cometer estupros na, até então, pacata e religiosa cidade peruana. Interessante notar que, ao mostrar esse machismo e a misoginia vigente dentro das casernas, Vargas Llosa faz uma de suas críticas mais bem direcionadas aos militares, que vão pipocar aqui e ali e em diferentes situações em quase todos os seus livros. Posicionado em Iquitos, Vargas Llosa vai nos contar a odisseia da degradação moral de nossa personagem principal. Vai discutir os limites entre o privado e o público, as consequências do fanatismo religioso, os jogos de poder entre militares, os dilemas éticos do sexo, o sensacionalismo midiático e, de certa maneira, a objetificação das mulheres neste canto do globo. Há, como um bom romance deve ter, muita história a ser contada, além de acontecimentos chaves que movimentam constantemente a narrativa, sempre deixando os leitores atentos para o que deve ocorrer em seguida. Em suas páginas iniciais, "Pantaleão e as visitadoras dá as boas-vindas aos leitores. Utilizando a técnica marcante de diálogos cruzados no espaço-tempo entre as personagens, o famoso estilo ziguezagueante que marcará o portentoso Conversa no Catedral, Vargas Llosa propõe que sua narrativa será uma experiência única e que cabe somente ao leitor entrar no peculiar modo de narrar do peruano.
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