O primeiro conceito definido por Aristóteles em “A política” é o de cidade compreendida como unidade política suprema. Enquanto toda associação busca um fim particular, a cidade procura um fim que implica a totalidade: a felicidade de todos os cidadãos. Nessa obra, constituída por três grandes grupos de lições - a teoria do Estado, a prática política e a política ideal - , o filósofo grego investiga a forma de governo e as instituições que seriam capazes de promover essa felicidade.
A Política (Saraiva de Bolso #019) - Texto Integral
Aristóteles
Aristóteles rompe com o mundo ideal de Platão e analisa a política de uma forma mais realista, tendo o homem comum como o sujeito central. O homem comum, segundo o autor, desfruta de certo ócio, sendo necessário para isso, a presença de posses. O ócio permite ao homem o estudo necessário para que ele se torne bem instruído e por consequência, que possa participar da atividade política. Aristóteles vê a comunidade como necessária ao desenvolvimento do homem e todo aquele que foge disso seria um deus ou uma fera. Pois é na polis que o homem desenvolve suas potencialidades. O regime de governo depende do tipo de povo. Segundo a analise de 158 constituições, Aristóteles chega a conclusão que há seis tipos de regimes políticos, quais sejam: monarquia, aristocracia, república, dentre os bons e tirania, oligarquia e democracia dentre os maus. Esse homem comum está inserido na polis, que objetiva uma vida boa aos integrantes através de uma vida justa. O bem é o fim da arte e em termos políticos, o bem seria a justiça. Porém, todo regime, toda conformação social traz consigo inúmeros ônus. A eficácia e consolidação da justiça não é tão simples quanto supunha o idealismo de Platão. Cada povo tem condições particulares, não havendo uma forma de governo aplicável a todos, embora tenha preferência para a monarquia dentre os bons e para a democracia, dentre os maus governos. Embora tenha tendência à Monarquia, Aristóteles defende a alternância entre mando e obediência, tendo em vista que é assim que a liberdade se consolida, haja vista a ausência de uma raça proeminentemente superior, mesmo entre reis. Aristóteles faz uso da máxima de que "Para bem comandar, é preciso ter antes obedecido." Infere ainda que é preferível a democracia em sociedades agrícolas e secundariamente na sociedade com vida pastoril, estando assim, os outros arranjos de democracia muito abaixo destes. Aristóteles deixa claro que a existência do homem médio é essencial para a manutenção de um regime de governo, funcionando este como uma espécie de árbitro que não tende nem para os mais ricos, tampouco para os mais pobres. O homem médio possui a abastança necessária para viver de forma equilibrada, sem desejar sobrelevar-se e sem a necessidade de rebaixar-se. Para Aristóteles, o governo republicano, tirado da classe média, aproxima-se mais da democracia do que da oligarquia. Assim, é o mais seguro e estável de todos os governos. Outro ponto interessante é que o autor aponta que os democratas são iguais aos outros em alguns aspectos, mas consideram-se absolutamente iguais, enquanto os oligarcas acreditam que por serem mais ricos, são superiores em tudo. Os dois modelos podem ter certa aparência de razão, mas como infere o próprio autor, todos se enganam, ao tomar por absolutamente justo o que o é apenas em parte. Por fim, o autor menciona que a única superioridade absoluta é a da excelência do mérito. Trago à baila um trecho que achei fenomenal:"Portanto, nunca é cedo demais para abafar as brigas dos altos funcionários e dos grandes. O mal está na origem. Em tudo, o que começou já está feito pela metade. O menor erro cometido no início repercute em tudo que se segue." Ao leigo, como eu, pode parecer ser tudo muito abstrato e fruto de muita divagação, mas as razões colocadas pelo autor demonstram muita acuidade em seus estudos e uma larga sistematização de seus pensamentos que transformaram-se em uma ciência prática, advindas provavelmente da época em que ele era preceptor de Alexandre. Apesar de ser relativamente pequeno, o livro é muito denso. Tem muita informação, portanto, não foi uma leitura rápida e não tive a pretensão que viesse a ser. É um livro que merece um tempo extra de dedicação para um entendimento mais amplo. Não traz verdades absolutas e alguns posicionamentos do autor são muito questionáveis e inaplicáveis aos dias atuais, mas é sem dúvida, um pioneiro e é genial na análise e na capacidade de enxergar o mundo de forma tão ampla e visionária. Recomendo.
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