O que Peter Gay faz neste livro de título curioso, Represálias Selvagens, é estudar, através das obras de conhecidos autores Charles Dickens, Gustave Flaubert e Thomas Mann -, as relações entre literatura e história ou seja, entre ficção e realidade.
São dissecadas, respectivamente, Casa Sombria (ou Casa Desolada, 1853), Madame Bovary (1857) e Os Buddenbrook (1901). Todas histórias que constituem marcos da literatura ocidental e que tiveram milhões de leitores desde que foram publicadas. Mas PG não se limita apenas ao estudo dessas obras e estende sua análise para outros livros dos três gênios europeus e até mesmo de outros autores, quando quer fazer comparações.
Além do aspecto literário, ele aborda também traços da biografia e personalidade de cada autor, questões do tempo e da sociedade em que viveram, etc., e que podem ser plenamente encontrados em seus livros. E isso é que é muito interessante, de fato o centro deste livro, a razão de seu título. Assim, Charles Dickens é caracterizado como o anarquista zangado, Flaubert, de o anatomista fóbico, e Mann, de o aristocrata rebelde
Depois, no epílogo, que chamou de As Verdades das Ficções, PG escreve, após discorrer sobre a questão da interpretação da realidade, que (...) pode haver história na ficção, mas não deve haver ficção na história. O problema é que a coisa toda não se simplifica nessa regra, pois os leitores querem confiar nos escritores de ficção tanto quanto querem confiar nos historiadores. Pois é...
O epílogo também traz um pequeno estudo de O Outono do Patriarca, célebre livro de Gabriel García Marques, que PG chama de um romance profundamente histórico sobre as ditaduras latino-americanas e que contém verdades essenciais sobre os déspotas Trujillo (República Dominicana) e Pinochet (Chile). Ele conclui: (...) nas mãos de um romancista de primeira categoria, uma ficção pode fazer história, nos dois significados dessa expressão.
São questões como essas e várias outras que encontramos em Represálias Selvagens. Interessantes, de fato, mas que abordadas com o característico (e necessário) estilo erudito de PG, podem parecer destinadas a agradar muito mais estudiosos de literatura e história do que propriamente leitores comuns. De todo modo, mesmo estes sempre terão algo novo a aprender com o livro. Eu aprendi...
Lido entre 06 e 09/09/2014.