Li esse livro há mais de um ano, ou quase isso. Nesse meio tempo, aconteceu o de praxe pra qualquer leitor com o mínimo de frequência: passei por livros bons, livros ruins e livros cuja existência eu me esqueci completamente assim que terminei a última pagina, etc.
Um ano e toda vez que eu penso em Three Parts Dead me vem a imagem de um gado sendo marcado com um ferrete em chamas. O animal sou eu e a marca em brasa é um amor absurdo, profundo por este livro.
Sou bem cético (chato) com séries de fantasia recentes (diga-se que se iniciaram ou terminaram neste século), devido as inúmeras decepções literárias que não vale o wi-fi mencionar.
Urban Fantasy é o gênero que menos explorei, durante minhas decisões de leitura. Então, eu realmente não sabia o que esperar disso aqui, além de uma capa bonita, uma sinopse instigante e uma aposta de leitura legal, pra compartilhar com meu namorado, que se interessou no título tanto quanto eu.
Aliás, falou em deuses morrendo eu apareço. Aprovo todo e qualquer deicídio, seja na ficção ou... bem, só preciso aprovar na ficção, não é? O único lugar onde os deuses existem, pra que possam morrer.
Pois bem, Max Gladstone me deu muito mais que falecimentos divinos.
O cara concebeu uma mitologia completamente AUTENTICA, em caixa alta, ao mesmo tempo enxuta e rica para um c*ralho. Um universo inteiro, do zero. Coerente, tridimensional, palpável. Contando com um sistema de magia que eu nunca nem vi parecido, redondinho e flexível o bastante pra gerar tretas complexas.
Poderíamos parar por aí e eu muito provavelmente já gostaria do livro apenas e exclusivamente por conta desses pontos, que eu considero bem difíceis de encontrar em publicações recentes.
Mas não, o moço pegou todo o folclore belíssimo que ele criou e inseriu numa armação objetiva, apresentado com uma narração sempre em tom de ascensão, através de personagens, descrições e diálogos afiados num nível samurai de anime. Cada capítulo, cada cena, cada página virada como um corte exato, cirúrgico, certeiro. Você pode não perceber na hora, mas no instante seguinte o sangue já está jorrando.
Tudo isso SEM ter que fazer fan service, sem ter que abusar de referencias a pop culture, sem ter que deitar pra esse publico pedante da nostalgia millennial/80tista e ainda assim mantendo um alto nível de modernidade e representatividade.
Essa é a leitura de fantasia mais sóbria e excitante que eu tive, em muitos anos.
Three Parts Dead é um obra que define a si mesmo, que se auto-afirma e demonstra uma pureza criativa alarmante - se é que isso existe.
Eu me senti tomando um shot do que seria a essência da mente de outra pessoa. Sem adições, sem conservantes, sem limão, sem sal. Só virei o copo e, bam!, Max Gladstone subiu na minha cabeça e eu fiquei embriagado de Tara Abernathy's, Elayne Kevarian's, deuses caídos e facas de estrelas.
E sim, eu sou dramático, é muito difícil eu conseguir maneirar nos elogios exagerados quando eu gosto tanto de algo quanto eu gostei desse livro, mas é especialmente frustrante pensar que Craft Sequence seja tão desconhecido aqui embaixo e, pelo que parece, até na europa. Mesmo não tendo tradução pra PT, PTBR e ES, a procura deveria ser 9000xs maior, o reconhecimento 18237182312xs maior, porque essa história é a prova cabal, em meras 336 páginas, de que:
- Não, tu não precisa escrever 1000 páginas pra criar um cenário foda;
- Protagonistas mulheres são sempre as melhores e precisamos de mais delas na ficção fantástica;
- Neil Gaiman falhou miseravelmente em American Gods;
- Ainda existem escritores com idéias realmente inovadoras e concepções originais, nesse mundo, pra quem está disposto a olhar nas prateleiras do fundo.
Independente dos próximos livros na série, pela impressão dilatante que me causou, já considero TPD como um monumento de qualidade em termos de narrativa, construção e conteúdo, no meu histórico literário.
Minha fé na fantasia moderna foi restaurada com sucesso e eu devo isso ao Max Gladstone. ;)