Houellebecq, aqui em versão bem mais consistente do que em romances como "Partículas elementares" e "Plataforma", retrata, magistralmente, o ser humano reduzido ao consumo, ao dinheiro. Mas a trama não se restringe a esses dois tópicos.
O personagem que protagoniza este excelente romance é Jed Martin: um artista francês observador da sociedade, um homem indiferente à participação na vida social. Seu primeiro trabalho é feito a partir de fotografias dos mapas dos guias de turismo Michelin, da onde vem a referência do título: mais do que o território, o que o interessa é o mapa, mais do que a realidade, o conceito.
Prosa descritiva que escorre limpidamente pela pagina como se fosse um manancial d’água, O Mapa e o Território narra com grande riqueza de detalhes a instabilidade econômica e estética do mundo das artes.
Na sociedade do espetáculo (onde o consumo e a valorização circunstancial de determinados artistas estão intimamente ligados com a ascensão burguesa), em lugar de propor inovações temáticas ou técnicas, alguns artistas (ele dá nome aos bois) adotam as ferramentas de marketing para agregar mediocridade a cada uma das peças que produzem.
São as regras do capitalismo predatório que elevam a cotação (e o preço) das fotografias, pinturas a óleo produzidas por Jed Martin.
Jed é um homem infeliz. Misantropo, a morte iminente de seu pai (arquiteto aposentado) e o funcionamento de um boiler são os últimos lastros de humanidade que o ligam ao mundo. Artista plástico consagrado desde que realizou uma série de fotografias sobre uma coleção de mapas Michelin, soube manter a privacidade – evitando a exposição gabola e o desgaste.
A forma como Houellebecq se cria e se insere no livro é uma ironia com a imagem que se criou dele. Ao mesmo tempo, mostra o egocentrismo do autor: o personagem é um falastrão típico, mas que alia na suas falas erudição e sinceridade.
Ele vive e some; aparece na trama e, detonando-se em sede de metalinguagem, revive sob a manta de um mistério trágicômico, que é arrolado ao romance como um aviso de que o suspense pode, (e por que não?), ilustrar o vazio ou a ausência.
"É impossível escrever um romance (...) pela mesma razão que é impossível viver: em razão das inépcias acumuladas", comenta o escritor-personagem para Jed.
Enfim, Houellebecq some da história também em uma demonstração de galhofa do autor consigo mesmo e com todos os seus críticos, detratores e seguidores: assassinado de forma brutal, marca uma breve guinada do romance para o tema policial, numa tacada genial.
É um livro para sempre.