Se a história deste romance nos fosse contada por Jed Martin, talvez ele começasse por falar da avaria da caldeira do seu apartamento, num dia 15 de Dezembro. Ou dos solitários. Natais passados com o pai, um arquitecto famoso que sonha construir cidades fantásticas mas ganha a vida a projectar resorts de férias. Talvez não falasse do suicídio da mãe quando tinha apenas sete anos, porque são muito ténues as recordações que dela guarda. Mas mencionaria certamente Olga, uma lindíssima russa, que conheceu por ocasião da primeira exposição do seu trabalho fotográfico baseado nos mapas de estradas Michelin. Apesar de indiferente à fama e à fortuna, Jed poderia mencionar o êxito estrondoso que alcançou com uma série de quadros de célebres personalidades de todos os meios, retratadas no exercício da sua profissão. Um dos retratados é Michel Houellebecq (sim, o autor), num trabalho conjunto que mudará a vida de ambos: fonte de vida para um e razão de morte para outro. Confrontado com o homicídio de uma pessoa próxima de si, Jed não poderia deixar de incluir no seu relato como ajudou o comissário Jasselin a esclarecer esse crime hediondo, cujo cenário aterrador deixou marcas profundas nas equipas da Polícia.
O Mapa e o Território -
Michel Houellebecq
Houellebecq, aqui em versão bem mais consistente do que em romances como "Partículas elementares" e "Plataforma", retrata, magistralmente, o ser humano reduzido ao consumo, ao dinheiro. Mas a trama não se restringe a esses dois tópicos. O personagem que protagoniza este excelente romance é Jed Martin: um artista francês observador da sociedade, um homem indiferente à participação na vida social. Seu primeiro trabalho é feito a partir de fotografias dos mapas dos guias de turismo Michelin, da onde vem a referência do título: mais do que o território, o que o interessa é o mapa, mais do que a realidade, o conceito. Prosa descritiva que escorre limpidamente pela pagina como se fosse um manancial d’água, O Mapa e o Território narra com grande riqueza de detalhes a instabilidade econômica e estética do mundo das artes. Na sociedade do espetáculo (onde o consumo e a valorização circunstancial de determinados artistas estão intimamente ligados com a ascensão burguesa), em lugar de propor inovações temáticas ou técnicas, alguns artistas (ele dá nome aos bois) adotam as ferramentas de marketing para agregar mediocridade a cada uma das peças que produzem. São as regras do capitalismo predatório que elevam a cotação (e o preço) das fotografias, pinturas a óleo produzidas por Jed Martin. Jed é um homem infeliz. Misantropo, a morte iminente de seu pai (arquiteto aposentado) e o funcionamento de um boiler são os últimos lastros de humanidade que o ligam ao mundo. Artista plástico consagrado desde que realizou uma série de fotografias sobre uma coleção de mapas Michelin, soube manter a privacidade – evitando a exposição gabola e o desgaste. A forma como Houellebecq se cria e se insere no livro é uma ironia com a imagem que se criou dele. Ao mesmo tempo, mostra o egocentrismo do autor: o personagem é um falastrão típico, mas que alia na suas falas erudição e sinceridade. Ele vive e some; aparece na trama e, detonando-se em sede de metalinguagem, revive sob a manta de um mistério trágicômico, que é arrolado ao romance como um aviso de que o suspense pode, (e por que não?), ilustrar o vazio ou a ausência. "É impossível escrever um romance (...) pela mesma razão que é impossível viver: em razão das inépcias acumuladas", comenta o escritor-personagem para Jed. Enfim, Houellebecq some da história também em uma demonstração de galhofa do autor consigo mesmo e com todos os seus críticos, detratores e seguidores: assassinado de forma brutal, marca uma breve guinada do romance para o tema policial, numa tacada genial. É um livro para sempre.
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