Outras Cores, o livro que Pamuk publicou após ter recebido o Prémio Nobel de Literatura em 2006, recolhe um vasto leque de textos de grande interesse: apontamentos da vida pessoal do autor e das suas complexas relações familiares, dos seus primeiros contactos com a sociedade ocidental e ensaios sobre cultura e análise política, incluindo o recente e mediático caso com a justiça turca. O livro inclui ainda uma short story da sua autoria, uma entrevista dada à Paris Interview e a conferência o Prémio Nobel, intitulada «A Mala do Meu Pai». Outras Cores, uma obra secretamente iluminada pelas palavras deste arquitecto que preferiu ser romancista, lê-se com deslumbramento.
Outras Cores - Ensaios Sobre a Vida, a Arte, os Livros e as Cidades
Orhan Pamuk
"Lendo Nobel": sobre o mundo colorido de um escritor
Poucos autores me chamavam tanto a atenção desde que comecei meu projeto Lendo Nobel que Orhan Pamuk. Talvez fosse a cultura, uma mistura ora intrigante, ora turbulenta entre ocidente e oriente, as aulas de arquitetura sobre a Turquia ou até mesmo a vontade de conhecer uma literatura tão diferente, pontuada em uma religião minoritária no Brasil. O fato é que eu comprava os livros de Pamuk torcendo para que os devorasse e se tornasse meu autor favorito. A leitura de O castelo branco e principalmente de O livro negro e repeliram de maneira impensada. Em contrapartida, Neve e Uma sensação estranha me hipnotizaram. Já o magnum opus, Meu nome é Vermelho eu estou com receio de encarar, detestar, e ele figurar no primeiro grupo, confesso. Por conta disso, decidi andar na contramão e ler Outras cores, um livro íntimo e que fala muito sobre o processo de escrita de Pamuk. Minha surpresa, no entanto, foi ver que o autor vai muito além do processo de escrita, ou então nos dando pinceladas breves sobre sua vida e ascensão de escritor. Dividindo em cinco assuntos em comum, que vão desde a vida pessoal e leituras, passando até mesmo por política, algo que ele volta e meia admite não gostar de falar sobre, tanto que decidiu abordar o assunto apenas em Neve. Aliás, é justamente Neve o livro mais recente de autor quando da publicação de Outras cores, onde sabemos também que está nascendo o que viria a ser, anos depois, O museu da inocência. Além disso, temos também discursos de prêmios recebidos ao longo da vida, seja por serviços prestados à literatura ou até mesmo à paz - em um país que conflitos não só de aspectos culturais, mas religiosos e políticos são intensamente explorados - incluindo o sentimental A maleta do meu pai, proferido na ocasião do Nobel de Literatura. O que fez com que eu me apaixonasse por Outras cores, para ser franco, foi todo o caminho trilhado por este autor, desde os seus 22 anos, quando decidiu abandonar sua rotina de estudante de arquitetura, para se dedicar exclusivamente à escrita, mesmo que tenha conseguido publicar seu primeiro livro apenas sete anos depois. Eu me encaixo em alguns detalhes, seja como estudante de arquitetura, ou com meus manuscritos na gaveta e que espero, sinceramente, que vejam a luz do sul um dia. Assim como o pai de Pamuk entregou sua maleta ao filho, para que o mesmo abrisse quando o pai viesse a falecer, este livro funcionou como um diário, um relato íntimo sobre tudo o que o autor, à época com 50 anos, viveu e experimentou, tanto de bom quanto de ruim, para que pudesse ter seu lugar sólido no mundo e, principalmente, na literatura. Um livro com muitos prismas, Outras cores funciona apenas para quem já leu Orhan Pamuk. Sempre sincero com o leitor e consigo mesmo, o autor costura vários assuntos distintos de maneira sublime, mesmo que isso venha manchar sua imagem. Basicamente, ele não tem medo de mostrar o mundo colorido de um escritor, mesmo que, às vezes, as cores desbotem. Este livro faz parte do projeto "Lendo Nobel". Mais em:
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