Uma imagem e uma memória. Um afeto e uma experiência. Um homem e uma mulher que se encontraram por acaso e se perderam para sempre. Com esses pares mínimos, Miguel Sousa Tavares desenha um mapa da desorientação contemporânea em No teu deserto, seu nono trabalho literário, publicado originalmente em 2009. O autor português que estreou com o celebrado Equador adota neste curtíssimo relato um estilo intimista e depurado, distinto dos afrescos históricos e caudalosos que lhe deram renome. Na obra, misto de aventura com reflexão lírica sobre perdas, temas como a saudade e a melancolia reafirmam seu lugar de honra na visão de mundo lusitana. A travessia do Saara feita por um casal que mal se conhece retoma a antiga mistura de fascínio e terror que o homem tem pelo deserto e que sempre atraiu os artistas. Nessa paisagem desolada, abismo da alma e espelho cósmico da solidão, reconhecem-se os rastros deixados por Rimbaud e Hemingway, Camus e Antonioni, Paul Bowles e Raymond Depardon. Cássio Starling Carlos Crítico da Folha



