Em qualquer seleção de textos, antologias, deve-se ligá-los de alguma maneira. Apenas reuní-los por uma questão autoral, é um trabalho pouco eficiente, tendo em vista a organicidade de uma bibliografia, principalmente quando estamos falando de uma obra tão vasta quanto de Balzac. Neste livro em questão, os dois contos reunidos pouco se relacionam tematicamente falando, e no quesito formal, eles se tocam mais por uma questão de gênero - principalmente esse conto desenvolvido por Poe cujo efeito reside no desenlace, onde tudo se maquina em torno desse efeito - do que por outros quesitos. Nesse sentido, este livro da L&PM me parece mais focado em organizar a coleção (64 páginas) em torno da extensão, do que editorar a seleção.
Há, é óbvio, um mistério que ronda os dois contos e que é desvelado no final como um barulho estrondoso, como uma surpresa - mesmo que o efeito seja preparado, ele é estruturado para lançar fogo. No primeiro conto, o texto que é mais um pretexto para refletir sobre arte do que um desenvolvimento formal agudo, esse desenlace final serve como conclusão da reflexão interna: a obsessão pela perfeição pode destruir uma obra de arte; no segundo conto, o texto que se manifesta como uma tensão entre as classes pós revolução francesa, se utiliza do desenlace para não só surpreender como também revelar culpa.
A atmosfera de descoberta, de curiosidade, que inicia os dois contos - a relação mais prolífica entre eles -, surge como um desenvolvimento de personagens (o pintor iniciante, a senhora religiosa) e um culto ao desconhecido (quem são esses pintores, quem é essa senhora e esse perseguidor). Em ambos os casos, o provável protagonismo destes personagens desvelando suas tramas, se sedimenta com a inclusão de mais personagens que contribuem a narrativa. Embora esse protagonismo seja dividido, repatriado ao longo dos textos, esses dois andantes que chegam, que partem, que voltam, são personagens que refletem o peso do ser em suas respectivas angústias, dúvidas, desejos.