Mesmo tecendo críticas a minha amada Jane Austen, sem dúvida, com este romance, Charlotte Bronthe, conquistou-me definitivamente, pois, através de Jane Eyre pude sentir o que posso chamar de um verdadeiro deleite literário. A narrativa da sofrida e determinada preceptora, me fisgou logo nas primeiras páginas, simplesmente não conseguia largar o livro!
Já conhecia a história através de uma série produzida pela BBC. Não gosto de assistir produções cinematográficas ou televisivas antes da leitura do livro, porque além de contaminar os personagens com a interpretação e imagem dos atores, provoca em mim, certo desinteresse, por não poder mais degustar a cada página, a delícia da surpresa. No entanto, com Jane Eyre não posso dizer que tive prejuízos de tal natureza. Foram 622 páginas de puro encantamento, tive por alguns dias diante dos meus olhos, uma personagem com a qual partilhei cada momento de desamparo, solidão, euforia e felicidade, as sensações de Jane pude sentir também como minhas.
Contendo alguns elementos autobiográficos (a semelhança entre criadora e criação é indiscutível), Charlotte insere ainda seu posicionamento contrário a instituição que era o casamento no século XIX. Feminista, a autora defende a busca de uma independência financeira, e não a estabilização da mulher através de um bom casamento, e é este o eixo da crítica de Bronte à Austen, infelizmente Bronte não percebeu qual era o tempero indispensável à receita literária de Austen, a ironia.
De vertente realista, salpicada com mistério, críticas a sociedade e ainda, o atraente elemento gótico, esta é uma obra revolucionária no contexto literário e social do seu tempo. Jane Eyre é um clássico, um livro que recomendo, e que só lamento por ser tão difícil de encontrar. Sendo assim, poucos terão o privilégio de conhecer intimamente uma personagem tão viva e sinceramente humana que me pareceu de carne e osso, uma heroína longe da perfeição, detentora de qualidades, mas que é sublimemente encantadora em seus defeitos. Sem sangue azul ou beleza que lhe aprouvesse, Jane cativa-nos, deixando o leitor de certa forma tão apaixonado quanto o seu amado Rochester.