One of the most important and controversial writers of the 20th century, Knut Hamsun made literary history with the publication in 1890 of this powerful, autobiographical novel recounting the abject poverty, hunger and despair of a young writer struggling to achieve self-discovery and its ultimate artistic expression. The book brilliantly probes the psychodynamics of alienation and obsession, painting an unforgettable portrait of a man driven by forces beyond his control to the edge of self-destruction. Hamsun influenced many of the major 20th-century writers who followed him, including Kafka, Joyce and Henry Miller. Required reading in world literature courses, the highly influential, landmark novel will also find a wide audience among lovers of books that probe the "unexplored crannies in the human soul" (George Egerton).
Hunger -
Knut Hamsun
O Escritor Faminto de Hamsun
“Foi nessa época que passei fome em Kristiania, esta cidade maravilhosa, da qual ninguém sai antes de receber as suas marcas.” “Fome” é um romance implacável escrito pelas mãos de Knut Hamsun lançado em 1890. O romance de estreia do autor sobre seu alter ego nos conta a história de um jovem com sonhos de ser escritor vivendo na fria cidade da antiga Kristiania, hoje, atual Oslo. O dia-a-dia do protagonista se configura como uma série de altos e baixos em uma luta constante e obstinada para colocar comida no estômago. O seu apoio é uma editora. O seu obstáculo é o editor dos livros, que muitas vezes não está presente. E caso lá esteja, ele não aceitará os manuscritos que lhe forem apresentados. Basicamente, esse é o enredo central da história. À priori, você pode achar que não acontece muita coisa nesse livro. Ledo engano. Quando lemos as páginas desse romance com mais calma, desbravamos suas mensagens implícitas e começamos a perceber que essa história tem um enredo psicológico muito forte. Ao acompanharmos a jornada do protagonista, um jovem escritor vivendo em extrema pobreza, enquanto vagueia por Kristiania - às vezes sem-teto, às vezes vivendo na acomodação mais miserável que se possa imaginar -, descobrimos tão logo que a maior parte da história se passa dentro da cabeça do escritor. Esse romance é essencialmente um estudo psicológico do que acontece com a mente, quando você está vivendo no limite, lutando desesperadamente pela sobrevivência. Fiquei na dúvida se se tratava de um romance cujo tema é naturalista ou socialmente realista. O protagonista passa fome porque não consegue encontrar trabalho ou porque é pobre? Ou a fome é um catalisador para tudo, exceto representações de miséria social? Bem, de qualquer modo, a fome é algo a que o escritor está exposto. É uma droga que o faz ver tudo sob uma luz diferente. Hamsun retrata o período de fome do escritor pouco antes da chegada do inverno. Ele vagueia inquieto pelas ruas da cidade. Vacilante, dividido e desesperado. Sua alma é um conglomerado de fragmentos culturais do passado e do presente, restos de livros e jornais, pedaços de pessoas. Ele é um sujeito sem história visível e sem identidade fixa. É nervosamente observador, impressionável. Cheio de abrasões mentais vivencia a cidade e seus habitantes de maneiras distorcidas e paranoicas. Conversa com mendigos, velhos, penhoristas, prostitutas, garçonetes e policiais. Ele fala com todos eles. Seus discursos são monólogos. Ele sonha com encontros amorosos orientais e grandes realizações literárias. É sempre solitário e é antissocial. É uma espécie de criminoso sem crime. Sua imaginação é dominada pela paranoia, pela idiossincrasia estética, pelo orgulho frágil, pela autodefesa e pela agressividade. Ele é uma montagem de impulsos mais ou menos arbitrários. Ele é retratado sem profundidade interior, sem experiência e com pouca visão auto analítica. É, portanto, tudo menos um herói de romance tradicional. Ele está no presente, e todas as suas autorreflexões são sobre as experiências presentes que não podem ou devem ser reunidas numa formação de experiência coerente, mas permanecem sempre no temporário. O romance não tem momentos construtivos. Praticamente todas as expressões de interesse pelos outros, todos os sinais de generosidade têm a ver com algo diferente de empatia. Trata-se de assumir posições que impeçam a recaída na lavagem do chão, nas refeições regulares, nos apertos de mão amigáveis e na ternura. Trata-se de exposição a distúrbios sensoriais e mentais. Eles são sobre orgulho e arrogância. O escritor faminto de Hamsun se encontra constantemente ou se coloca em situações que promovem essa posição de ‘outsider’. Ele se sente estranho a si mesmo, vê-se como presa de ‘influências estranhas e invisíveis’. Nada escapa a sua atenção. Ele é um ponto de encontro para os regimentos da arbitrariedade. Seu humor está além do controle pessoal. Tudo parece “fugir de mim”, é dito em vários trechos do romance. Não tenho dúvidas de que o autor desse romance foi exposto à fome. As descrições e os detalhes são tão vívidos e realistas que é quase como se você, leitor, estivesse passando pela experiência. Isso torna a leitura desconfortável. É doloroso ver um ser humano se desintegrando daquele jeito. Eu estava apertando as mãos em desespero, quando, depois de um longo período sem comida substancial, o escritor recebe uma refeição adequada, mas seu corpo, que não está mais acostumado com comida, não consegue mantê-la no estômago. E eu queria chutá-lo, quando a dignidade e o orgulho o impedem de aceitar comida ou dinheiro, o que poderia mantê-lo por um dia ou dois. Hamsun mergulha direto na alma ao descrever as fantasias e pensamentos febris de um homem que se equilibra no abismo, pois aqui orgulho e decência são desafiados continuamente. Mas se há algo que permeia o livro é, afinal, a esperança. A esperança e o sonho de uma vida melhor, que nunca se extingue completamente. Alterna-se entre se divertir com sua tentativa desajeitada de encobrir sua pobreza e entre ficar deprimido com sua vida miserável. Esse romance sombrio e existencial é fascinante. É escrito em estilo ‘fluxo de consciência’, embora bastante comum hoje em dia, era bastante incomum em 1890. Achei a prosa extremamente poderosa, com cada palavra queimando com raiva, exasperação, desespero, frustração. O protagonista não se entrega à auto piedade, recorrendo por vezes ao humor descontraído, o que torna tudo mais suportável. Do início ao fim, essa história é uma viagem insistente ao ser de um ser humano que vagueia pela grande cidade à beira de ser engolido e consumido pelas suas duras condições de vida. E é a descrição de uma luta desesperada para encontrar uma posição segura na vida. Uma luta descrita em linguagem formidável por Hamsun. Se você é fascinado por literatura existencial com foco na mente humana, esse romance é leitura obrigatória. Não à toa, Hamsun foi chamado de Dostoiévski nórdico. Foi um dos pioneiros da literatura psicológica e considerado inspirador de autores como Kafka e Thomas Mann. Ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1920. Admirador da Alemanha desde os tempos de Otto von Bismarck, ele detestava o modo de vida promovido pelo expansionismo industrial patrocinado pelos ingleses. Então, na década de 1940, com mais de 80 anos, passou a apoiar abertamente o n4zism0. Em 1943, ao encontrar Adolf Hitler e Joseph Goebbels, ele presenteou o ministro de propaganda alemã com a medalha recebida no Nobel. E enfureceu Hitler queixando-se da violência das tropas alemãs na Noruega ocupada. Com o fim da guerra, em 1945, já aos 86 anos, ele foi julgado e condenado como colaboracionista. Teve de pagar uma multa que o deixou novamente pobre e passou o resto de seus dias preso/internado em um hospital psiquiátrico. Escritor de mão cheia, pagou um preço alto — justamente, diga-se — por sua detestável escolha política. E continua pagando: não há e nunca houve em toda a Noruega uma rua, estátua ou mesmo um selo em sua homenagem. 📚🥣👨🏽🏫✍🏽☕️🕰⌛️
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