A leitura dessa obra foi encerrada justamente na mesma época da troca de 20 e poucos reféns por mais de 2000 "prisioneiros". A sensação é bem estranha, pois parece que a história se repete, o poder de representação narrativa que Said se refere no texto, novamente é colocada em prática. Mesmo com as provas e a disseminação dos absurdos com mais de 50 mil mortes, o controle da narrativa é impressionante. Edward Said é um grande intelectuale o livro não é uma obra acadêmica, mas um ensaio político. O autor fala de sua participação no Conselho Nacional Palestino e menciona sua interlocução com Yasser Arafat, então líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Como seria de se esperar, o ensaio guarda as marcas do autor que acabara de escrever, Orientalismo : Said se coloca como a voz nativa que explica ao mundo a visão palestina, que ele argumenta que foi suprimida ou sequestrada por agentes externos, dessa forma deixando de ser sujeitos da própria história.
O livro, apesar de ser "datado" (escrito nos anos 70) traz três eixos fundamentais que foram importantes para mostrar uma contextualização importante, são eles: três eixos: (1) uma articulação da visão palestina sobre o estabelecimento do Estado de Israel, (2) uma reflexão sobre a formação da identidade palestina e do OLP na década de 1960 e (3) uma análise das relações entre a Palestina, os EUA e os países árabes. Embora algumas análises da conjuntura possam ter envelhecido distante da realidade atual, outras observações foram certeiras. E a contextualização dos acontecimentos é muito rica.
O livro vai mostrar as consequências da ação sionista a partir da visão dos palestinos. O que a imigração judaica significou não para os judeus que foram seus beneficiários, mas para os árabes que se sentiram encurralados por uma avalanche estrangeira? De acordo com os números apresentados por Said, em 1822, a província do Império Otomano conhecida como Palestina tinha cerca de 240 mil habitantes, dos quais 24 mil eram judeus. Em 1882, iniciava-se a política de imigração judaica. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, a população judaica era de 60 mil, dentre um total de 689 mil habitantes. Em 1931, era de 175 mil ante 1 milhão. Em 1936, 385 mil ante 1,3 milhões. Dois anos antes da independência de Israel, em 1946, havia 600 mil judeus vivendo como minoria num território ocupado por 1,9 milhão de pessoas, majoritariamente árabes, muçulmanas e de vida agrícola ou pastoral.
É uma leitura complexa e as vezes cansativa, o autor faz muitas citações diretas buscando defender a visão que traz, talvez colocar essas citações em nota de rodapé tornasse a leitura mais fluída, esse é, na minha concepção, o ponto negativo da obra, que atrapalha a leitura. Mas no todo é uma leitura imprescindível para termos uma visão divergente do que se dissemina por aí.