Amor Towles, embora estreante, não é mais uma promessa (na minha opinião.) Aguardo ansiosamente seu próximo romance.
"Regras de Cortesia" não estava nos meus planos, e ao ler a resenha do amigo Daniel aqui no Skoob, tratei de encará-lo antes de partir para a leitura do festejadíssimo "Desonra", do não menos consagrado J. M. Coetzee.
Katey Kontent, protagonista do romance, e suas reminiscências me pegaram de jeito. Até substitui minha atual coleção de cd´s no carro. Cole reina, ao lado de Ella Fitzgerald, desfiando com genialidade as canções dos irmãos George e Ira Gershwin.
O romance se situa nos anos pós-depressão, provocados pelo crack da bolsa de valores de NY (1929). Towles exalta a luta de uma cidade mítica para superar o fatídico ano de 1929, e particularmente a luta de Kate para ascender e sobreviver aos redemoinhos do jet set.
Não deixa de ser, na minha opinião, a tentativa de resgatar a Grande década, a de 1920.
Sim, foi grandiosa a década de 20, para o pessoal que se dedicava ao convívio boêmio, e à literatura. Em Paris, flanavam
os "expatriados americanos" - Ezra Pound, William Carlos William, Hemingway, o nosso Fitzgerald (imortalíssimo), enfim, a turma que Gertrude Stein - com uma ponta de inveja - batizou de "A Geração Perdida.
O romance me faz pensar. Em Londres, havia nada mais, nada menos, "o círculo de Bloomsbury", em torno da figura mítica de Woof e Lytton Strachey.
Até em nosso recanto, os rapazes faziam a roda girar, ainda que lentamente e sem o mesmo glamour, com a Semana de Arte Moderna (que foi um evento relevantíssimo, mas salpicado por mitos criados a partir do imaginário popular e também graças ao talento de Oswald para superdimensionar os fatos.)
E em Nova York... também havia um grupo de jovens, com um pendor inigualável para o humor e as boutades, que dia sim, e no outro também, se reunia em volta de uma mesa redonda no Algonquin, comandada, dentre outros, por Dorothy Parker, Robert Sherwood, Robert Benchey, Harpo Marx, Irving Bern e não raro, o inglês Nöel Coward, e sua inteligência carismática, fiel e composta por longos fios de sensibilidade indestrutível.
Enfim, não é tarefa fácil explorar o tema escolhido por Towles. O livro marca a estreia dele. Ele não teve medo algum dos perigos, gigantescos, ao enveredar pela trilha evocativa, em meio a uma cidade iluminada por artistas que influenciariam decisivamente gerações e gerações e gerações de poetas, escritores, pintores e etc.
Towles conseguiu afastar qualquer ranço de autocomiseração; não li nada vazio, piegas, meramente evocativo. As reflexões de Kate Kontent consituem o centro mais elevado do romance, que evoca com realismo o ambiente dos botecos onde se tocava Jazz no Village, dos cafés de Wall Street, dos restaurantes e bares de mid-town Manhatan, e dos spekeasies do lower east side de Manhatan daquela época e seus frequentadores.
Impossível não associar o ambiente descrito neste livro com romances de Fitzgerald, Capote, Edith Warton ou os contos e os poemas de Dorothy Parker...(e tais associações não trucidam o mérito de Towles, com soe acontecer com iniciantes dotados de talento ainda raso ou imaturo.)
Mas o encanto é imediato. A trama sobre amor, relacionamentos, classes sociais, sorte e destino é valiosamente manejada por Towles.
É também uma declaração de amor a Manhatan, a seu glamour e a seu estilo, e o inevitável exclusivismo inerente àqueles que cultuam a arte, formatando painéis culturais indestrutíveis. Às vesperas da Segunda Guerra Mundial, como se o destino acenasse uma pausa trágica, as pessoas trataram de viver e construir uma época.
Uma linda viagem no tempo. Kate não esconde seu desencanto. Inegável a presença da flor drumomondiana nascida em meio ao asfalto. Mas a protagonista reconhece o tráfego incessante das desilusões.
Ante o desafio proposto, Amor Towles se saiu muito bem.