Estação Carandiru -

    Drauzio Varella

    Companhia das Letras
    2017
    368 páginas
    12h 16m
    ISBN-13: 9788571648975
    Português Brasileiro

    O médico Drauzio Varella relata dez anos de atendimento voluntário na Casa de Detenção de São Paulo, o maior presídio do Brasil, e mostra como um código penal não-escrito organizava o comportamento da população carcerária. Em 1989, o médico Drauzio Varella iniciou na Detenção um trabalho voluntário de prevenção à AIDS. Entre os mais de 7200 presos, conheceu pessoas como Mário Cachorro, Roberto Carlos, Sem-Chance, seu Jeremias, Alfinete, Filósofo, Loreta e seu Luís. Não importava a pena a que tinham sido condenados, todos seguiam um rígido código penal não escrito, criado pela própria população carcerária. Contrariá-lo poderia equivaler à morte. O relato de Drauzio Varella neste livro tem as tonalidades da experiência pessoal: não busca denunciar um sistema prisional antiquado e desumano; expressa uma disposição para tratar com as pessoas caso a caso, mesmo em condições nada propícias à manifestação da individualidade. Lançado em 1999 e transformado em filme em 2003, por Hector Babenco, Estação Carandiru recebeu o Prêmio Jabuti 2000 de livro do ano e, desde então, já vendeu centenas de milhares de exemplares.

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    Augusto de Sousa01/09/2013Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Fiz o caminho inverso e li antes o "Carcereiros" (último livro do autor) e depois o "Estação Carandiru". O dr. Drauzio Varella já havia chamado minha atenção com o primeiro que me chegou às mãos e o segundo apenas consolidou o que eu já pensava a seu respeito. Me agrada muito a maneira franca como o autor descreve a própria experiência na Casa de Detenção. Especialmente porque ele não tenta se pintar como um super herói, ou como alguém inatingível, um "bastião da ciência". Neste livro (como também em "Carcereiros"), Drauzio é apenas... humano. Fala com franqueza do medo que sentiu a princípio no ambiente prisional, da desconfiança inicial com que foi tratado pelos prisioneiros e funcionários, do enorme receio que teve diante da possibilidade real de contrair doenças graves (como a tuberculose) que afetavam inúmeros presos, das vezes em que caiu na lábia dos criminosos que se aproveitavam da sua inexperiência, das vezes em que pensou em desistir e até dos momentos em que sentiu-se limitado no seu conhecimento da Medicina. Em relação aos apenados, o dr. não adota o discurso (algumas vezes) romantizado dos defensores dos direitos humanos nem tampouco reproduz a fala manjada e preconceituosa do senso comum. O que quero dizer é que Drauzio, procura, a meu ver, ser imparcial. Nem "demoniza", nem "beatifica" os "moradores" do Carandiru. Não generaliza, agregando-os todos à "casta dos monstros desalmados merecedores do lugar que conseguiram" no inferno chamado Sistema Penitenciário brasileiro, nem os faz parecer vítimas inocente do Sistema. Não me entenda mal, o próprio Drauzio admite a existência de criminosos capazes de crimes tão bárbaros que ele próprio teve, em alguns momentos, dificuldade de tratá-los como exige a ética da profissão. O autor inicia traçando um panorama geral da cadeia, tanto no aspecto físico (seus pavilhões, cada um com suas peculiaridades, suas celas, as "isoladas", as áreas de lazer, etc) quanto no aspecto organizacional, por assim dizer. Descreve muito bem os "códigos de conduta" que regem o comportamento da "malandragem" (como eles mesmos se autodenominam) dentro da Detenção. Entender e atender ao que é considerado aceitável (e o que não é) pelos prisioneiros é essencial à sobrevivência dos novatos. A punição aos incautos é exemplar. Interessantíssimo descobrir que os criminosos também possuem uma espécie de "moralidade" (distorcida em muitos casos, é claro, mas ainda assim moralidade) e que zelam por ela com unhas e dentes. Confesso que me surpreendi, por exemplo, ao saber que "desrespeito à mulher do próximo" é considerado delito gravíssimo. E não interessa se a mulher em questão é "prostituta de profissão" ("isso é lá fora..." - segundo eles), dentro da cadeia, em dia de visita, tem de ser respeitada. Ai de quem ousar sequer olhar pra senhora do outro. Com maestria Drauzio Varella apresenta o leitor ao universo absurdo de um presídio e depois dessa apresentação inicial passa a uma coletânea de relatos das histórias de vidas de vários apenados. As tais histórias contadas são incríveis (algumas vezes no sentido literal do termo) e progridem até o final do livro, quando é narrada, de forma impressionante, com cores muito vivas e segundo o ponto de vista dos criminosos (sem farda) o já conhecido Massacre do Carandiru. O relato dos três últimos capítulos cumpre muito bem o papel de dar voz àquelas pessoas que, de outra forma, teriam sido emudecidas. 4 estrelas.

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