A ROMANA, romance do italiano Alberto Moravia não é apenas um romance, com personagens, enredo, clímax e todos os elementos que o fazem um romance, é um desabafo, um relato. A escolha da narrativa pela primeira pessoa - Adriana, a romana - dá ao leitor essa sensação de relato, de confissão. Nós nos sentimos um amigo próximo dela, que era tão só, embora sua profissão implicasse as múltiplas relações humanas.
Talvez seja essa a intenção de Moravia, mostrar-nos não apenas a vida de Adriana, suas dificuldades financeiras e os desejos de properidade de sua mãe, que a levam (Adriana) a se prostituir; mas explorar o sentimento e o posicionamento da personagem, que consegue expor seus medos, suas angústias e seus prazeres. Se o romance fosse narrado em terceira pessoa, muito provavelmente, não teríamos o mesmo efeito. Moravia dá voz à prostituta na figura de Adriana, que é forçada a se prostituir não apenas porque passaria fome se não o fizesse, mas porque caminha - sob influência de sua amiga Gisella, dos anseios de sua mãe - para a forma de viver que lhe parece mais "fácil" e também glamourosa, pois só assim, ela conseguiria se relacionar com pessoas de posses.
Nesse momento, Moravia nos mostra a necessidade materialista do sujeito, que é capaz de levá-lo a escolher caminhos muitas vezes "errados". Adriana se alimenta do que os outros têm, como se assim ela o tivesse também. Gisella, personagem marcada pela falta de personalidade e pelo vazio sentimental, pois é movida pela busca incessante pelo luxo, serve de espelho para Adriana numa sociedade que busca a riqueza como sinal de felicidade. Interessante é que, com o passar do tempo, Adriana se depara com a frustração, pois a profissão não a deixa rica, a ponto de um dia deixar de ser prostituta e viver bem.
Para completar a angústia da personagem, ela acaba se envolvendo com um cliente, Giacamo, personagem que serve de constraste com o seu primeiro envolvimento, o motorista Gino, com quem ela iria se casar, não fosse a frustração de descobrir que ele já era casado, o que contribui para ela escolher a prostituição como meio de vida. A função de Gino e a visão do casamento tradicional, embora simples, é incitar no leitor a reflexão sobre as escolhas da vida. Adriana parece ser tocada por isso, ao se decepcionar com o amor verdadeiro, o que a faz mergulhar no prazer sexual e financeiro, abrindo mão de um amor que lhe completasse a vida e a tirasse de um vazio, que parece não possível ser preenchido.
Alberto Moravia nos presenteia nesse romance com uma verdadeira reflexão sobre o ser humano, seus desejos, seus medos, suas glórias, suas paixões, mas sem nos guiar ao caminho do bem ou do mal, pois sua obra é superior a essa visão dual.
Algo que não poderia ser esquecido é o requinte da narração de Moravia, que é sutil e de forte poeticidade, além do apuradíssimo vocabulário. O texto - não porque está narrado em primeira pessoa - conduz o leitor, levando-o a caminhos da alma humana, por meio da visão de uma prostitutura romana, que, assim como nós, é apenas um ser humano em busca da felicidade, da realizão dos próprios sonhos e dos sonhos dos outros, como os de sua mãe.
Poderia falar mais, porém, vou encerrar aqui dizendo que A ROMANA foi um dos melhores romances que já li.