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    O Homem do Castelo Alto -

    Philip K. Dick

    Saída de Emergência
    2015
    288 páginas
    9h 36m
    ISBN-13: 9789896377502
    Português
    3.5
    7177 avaliações
    Leram9639Lendo761Querem9757Relendo12Abandonos656Resenhas1112
    Favoritos77Desejados9757Avaliaram7177

    Neste romance perturbador e surpreendente, publicado originalmente em 1962 e vencedor do Prêmio Hugo, Philip K. Dick apresenta um cenário sombrio: a Segunda Guerra Mundial foi vencida pelos Nazistas. O mundo vive sob o domínio da Alemanha e do Japão. Os negros são escravos. Os judeus se escondem sob identidades falsas para não serem completamente exterminados. É nesse contexto assustador que se desenvolvem os dramas de vários personagens, cujas vidas acabam entrelaçadas pelos ditames do I Ching, o milenar oráculo chinês, e que se descobrem envolvidos em situações além de seu controle. Considerado por muitos o melhor trabalho de Philip K. Dick, O Homem do Castelo Alto apresenta uma versão alternativa da história, revelando um olhar crítico e filosófico sob a condição humana. E, antecipando filmes e seriados de sucesso, como Matrix e Lost, levanta a grande questão: "O que é a realidade, afinal?"

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    Sidney Danillo de Moraes Lopes picture
    Sidney Danillo de Moraes Lopes16/04/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O Gafanhoto Torna-se Pesado

    E se a Alemanha nazista tivesse vencido ? Como o país e sua Blitzkrieg chegou muito perto de ganhar a Segunda Guerra Mundial, essa é uma realidade que foi imaginada por muitos. Um destes foi Philip Kindred Dick, que em 1962 lançou "O Homem do Castelo Alto", ganhador do prêmio Hugo de 1963. Na realidade imaginada por K. Dick, os EUA não conseguiram superar a grande depressão de 1929 devido ao assassinato de Franklin Roosevelt, o que faz o país ficar extremamente fragilizado militarmente e não conseguir ajudar os Aliados. E, pior ainda: o Japão invade o Oeste do país. Enquanto isso, a Alemanha toma toda a Europa, dizima a URSS, a África e todas as minorias. Resumindo, basicamente a Alemanha toma toda a África, Europa e o Leste dos EUA. Japão domina Ásia, Oceania e o Oeste dos EUA. É nesse cenário que PKD desenvolve talvez os seus personagens com maior profundidade (pelo menos dentre as obras que li até agora): Frank Frink, um construtor de jóias; Juliana Frink, ex-mulher de Frank, que parte em uma jornada ao lado de um agente nazista disfarçado; Robert Childan, o dono de um antiquário que tem um complexo de inferioridade e ao mesmo tempo admiração pelos japoneses dominadores; Nobusuke Tagomi (meu preferido), o ministro do comércio japonês nos EUA, que se vê em meio a uma conspiração envolvendo um agente alemão da Abwehr e um militar japonês de alta patente; E Hawthorne Abendsen, o escritor de um livro dentro do livro chamado "O Gafanhoto Torna-se Pesado", que relata com uma verossimilhança absurda a derrota do Eixo na guerra. Ou seja, temos aqui uma metalinguagem. E uma das boas. Algo que liga esses personagens é o I Ching, o livro das mutações, que permeia toda a história, guiando e aconselhando os personagens e com um peso ainda maior do que o livro escrito por Abendsen. Aliás, Abendsen é o próprio Dick. Figurativamente. Na realidade e na ficção, os autores usaram o I Ching de maneira quase febril para escrever seus livros, isolados em uma cabana. Nas duas realidades, o I Ching determina a construção dos personagens e o andamento da história. Realidade e ficção se misturam de maneira perfeita, em uma incrível metalinguagem. Em determinado momento da história, há até a discussão se o livro de Abendsen é ou não ficção científica e, por tabela, traz esse questionamento para o próprio "Homem do Castelo Alto". Esse livro é fantástico, pois mostra perfeitamente o mundo dominado pelo Eixo. No período em que ocorre a história, há uma espécie de guerra fria entre Japão e Alemanha, que estão para ir para as vias de fato através da operação nazista dente-de-leão; Mostra como a Alemanha é superior ao Japão tecnologicamente, tendo até iniciado a exploração espacial, plenamente factível, se lembrarmos que os EUA cooptaram vários cientistas nazistas para trabalhar em sua própria tecnologia espacial. Aliás, essa exploração espacial nazista (conceito assustador!) é o único traço de sci-fi deste livro. Podemos dizer que K. Dick escreveu uma ficção especulativa distópica. Outro aspecto interessante que não costumamos ver com frequência nas obras do autor é a existência de uma personagem feminina com relevância na história. E Juliana Frink é essa personagem. Emmanuel Carrère diz na biografia "Eu estou vivo e vocês estão mortos" que Dick criou Juliana para se apaixonar por ela. A personagem é a responsável por mostrar à Abendsen, através de uma pergunta ao I Ching que o próprio jamais teve coragem de fazer, que a realidade descrita em "O Gafanhoto Torna-se Pesado" é a verdadeira realidade, que aquela na quais os personagens viviam de alguma forma era falsa. Este é o final do livro, determinado pelo I Ching no mundo real, e pra mim foi plenamente satisfatório. Vale dizer que o Sr. Tagomi teve um vislumbre desta "realidade verdadeira" em um momento que assemelha-se à iluminação budista, descrito belamente pelo autor: "Sinto os ventos quentes do carma me conduzirem. Não obstante, fico aqui. Meu treinamento foi correto: não devo fugir da brilhante luz branca pois, se o fizer, retornarei novamente ao ciclo da vida e da morte, sem nunca conhecer a liberdade, sem nunca ter descanso. O véu de Maya tombará mais uma vez se eu... A luz desapareceu. " Enfim, esse livro ainda possui muitos outros detalhes dignos de nota, como a noção de historicidade de objetos de coleção, grande descrição da geopolítica daquela realidade, a profundidade da psiquê dos personagens e muitas outras coisas. Mas basta dizer que este é um livro digno de uma leitura atenta e detalhada e que irá te fazer pensar por dias! Ah, vale lembrar que há a série de TV baseada no livro. Eu vi somente a primeira temporada e gostei bastante, apesar da história ser muito diferente em relação ao livro e achar o andamento um pouco arrastado. Vale a pena conferir, mas o livro é infinitamente superior!

    251 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    3.5 / 7177
    • 5 estrelas14%
    • 4 estrelas32%
    • 3 estrelas36%
    • 2 estrelas15%
    • 1 estrelas3%
    Philip Kindred Dick profile picture

    Philip Kindred Dick

    Philip Kindred Dick, também conhecido pelas iniciais PKD, foi um escritor americano de ficção científica que alterou profundamente este gênero literário. Apesar de ter tido pouco reconhecimento em vida, a adaptação de várias das suas novelas ao cinema acabou por tornar a sua obra conhecida de um vasto público, sendo aclamado tanto pelo público como pela crítica e tornando-se um ícone da contracultura. Sua obra é marcada por fantasmagóricas histórias de paranóia e primam pela originalidade. Explorou em muitas das suas histórias temas como a realidade e a humanidade, utilizando normalmente como personagens pessoas comuns e não heróis galácticos comumente associados a obras do gênero. Sua obra mais conhecida em vida foi <i>O Homem no Castelo Alto</i> (1961), vencedor do Prêmio Hugo de ficção científica. Apesar de ter tido pouco reconhecimento em vida, a adaptação de várias das suas novelas ao cinema acabou por tornar a sua obra conhecida de um vasto público, sendo aclamado tanto pelo público como pela crítica. Filho de um funcionário do governo federal, a sua irmã gémea morreu quase à nascença. Os seus pais divorciaram-se quando Philip contava quatro anos de idade. Acompanhou a mãe na sua mudança para a Califórnia, onde estudou, ingressando na Escola Secundária de Berkeley, onde permaneceu até 1945. Matriculou-se então na Universidade da Califórnia, onde estudou Filosofia e Alemão, abandonando o curso para trabalhar como disc-jockey numa emissora de rádio, mantendo, ao mesmo tempo, uma loja discográfica. Começou a escrever nesta época, publicando o seu primeiro conto de ficção científica na revista Planet Stories. Chegou a terminar alguns romances de índole autobiográfica, mas não conseguiu encontrar quem os editasse. Decidiu portanto dedicar-se inteiramente à ficção científica, convicto de que este género poderia melhor abarcar as suas especulações filosóficas. A sua primeira obra publicada foi Solar Lottery de 1955. A ação da obra decorria no século XXIII, num tempo em que a democracia como forma de eleição foi substituída por uma sistema de loteria que decide as funções dos indivíduos na sociedade. No entanto, vem-se a descobrir que a sorte está viciada. Após o aparecimento de obras como Eye In The Sky de 1956, Dr Futurity de 1960 e Vulcan's Hammer de 1960, Philip K. Dick conseguiu ser reconhecido como escritor, sobretudo com a publicação de The Man In The High Castle (O Homem do Castelo Alto) de 1962. O romance recriava um mundo em que a Alemanha e o Japão haviam vencido a Segunda Guerra Mundial. Por ter mantido relações com o Partido Comunista norte-americano, o escritor foi alvo de cuidadosas investigações por parte do FBI e dos serviços secretos da Força Aérea dos EUA. A visão quase paranóica da realidade que Dick demonstrou em muitos dos seus trabalhos não seria portanto de todo infundada. Inspirando-se em ideias do Budismo, Cabalismo, Gnosticismo e outras doutrinas herméticas, e combinando-as com certos aspectos das novas crenças na parapsicologia, extraterrestres e percepção extra-sensorial, o autor criou mundos alternativos nos quais acabou eventualmente por julgar viver. Consumindo drogas em excesso, alegou ter sido contactado em 1974 por uma inteligência alienígena. PKD explorou em muitas das suas obras temas como a realidade e a humanidade, utilizando normalmente como personagens pessoas comuns e não os normais heróis galácticos de outras obras do gênero. Precursor do gênero cyberpunk, o seu livro Do Androids Dream of Electric Sheep? (Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?) inspirou o filme Blade Runner que, já perto da sua morte por um AVC (Acidente Vascular Cerebral), serviu como introdução a Hollywood e levou a que outras obras suas fossem adaptadas ao cinema. Os filmes Minority Report: A Nova Lei, O Vingador do Futuro, Screamers: Assassinos Cibernéticos, O Pagamento, Impostor, O Vidente, Os Agentes do Destino e O Homem Duplo, também são baseados em novelas ou contos de Dick.

    162 Livros
    939 Seguidores
    Califórnia, Estados Unidos

    Philip Kindred Dick